A ementa oficial da MAT-22 · Cálculo Diferencial e Integral II do ITA termina em integrais duplas e triplas, com a bibliografia de Apostol, Stewart e Guidorizzi. Os exemplos abaixo são meus, do tipo clássico desses livros e no nível dessa ementa — não são questões de prova do ITA, que não estão publicadas. A metade de derivadas está na aula 14; o dA e o jacobiano básico, na aula 12.
ementa e bibliografia: página oficial da disciplina MAT-22 no site do ITA (ita.br/ocw/mat22). Todas as respostas foram conferidas por integração numérica antes de publicar.
1 · Inverter a ordem quando a integral não sai
∫ ey² dy não tem primitiva que se escreva com funções elementares. Numa prova, isso é recado: a ordem está errada de propósito. Redesenhe a região e fatie no outro sentido.
A mesma região, fatiada dos dois jeitos
região 0 ≤ x ≤ y ≤ 1 · a função é e^(y²) · o valor certo é (e − 1)/2 ≈ 0,8591
exemplo 1.1 · ∫₀¹ ∫ₓ¹ e^(y²) dy dx
- Desenhar a região
x de 0 a 1 e, pra cada x, y de x a 1 → o triângulo 0 ≤ x ≤ y ≤ 1
- Fatiar deitado
y de 0 a 1 e, pra cada y, x de 0 a y → ∫₀¹ ∫₀y ey² dx dy
- Por dentro, em x
ey² não depende de x: ∫₀y ey² dx = y ey²
- Por fora, com u = y²
∫₀¹ y ey² dy = ½ [ey²]₀¹ = (e − 1)/2
= (e − 1)/2 ≈ 0,8591
Confere: integração numérica na ordem original: 0,859141 ✓ · o y que “apareceu” no passo 3 é o comprimento da fatia — foi ele que salvou a substituição
exemplo 1.2 · ∫₀¹ ∫ᵧ¹ sen(x²) dx dy
- A região
y de 0 a 1, x de y a 1 → 0 ≤ y ≤ x ≤ 1
- Fatiar em pé
∫₀¹ ∫₀x sen(x²) dy dx = ∫₀¹ x sen(x²) dx
- Com u = x²
½ [−cos u]₀¹ = (1 − cos 1)/2
= (1 − cos 1)/2 ≈ 0,2298 · confere numericamente: 0,229849 ✓
exemplo 1.3 · a área entre y = x² e y = x, nas duas ordens
- Onde se cruzam
x² = x → x = 0 e x = 1; entre eles, x fica em cima
- Em pé
∫₀¹ ∫x²x dy dx = ∫₀¹ (x − x²) dx = 1/2 − 1/3 = 1/6
- Deitado
pra cada y, x vai de y (reta) a √y (parábola): ∫₀¹ (√y − y) dy = 2/3 − 1/2 = 1/6 ✓
área = 1/6 · a armadilha: deitado, os limites de x são a curva inversa (√y), não a mesma fórmula
2 · Mudança de variáveis além das polares
dx dy = |∂(x, y)/∂(u, v)| du dv. Escolha u e v que endireitem a região, e escreva x e y em função deles pra calcular o jacobiano.
exemplo 2.1 · ∫∫ (x + y) dA no quadrado inclinado 0 ≤ x + y ≤ 2, 0 ≤ x − y ≤ 2
- As novas variáveis
u = x + y (0 → 2) · v = x − y (0 → 2): a região vira um quadrado
- Voltar pra x e y
x = (u + v)/2 · y = (u − v)/2
- O jacobiano
det [ ½ ½ ; ½ −½ ] = −¼ − ¼ = −½ → |J| = ½
- Integrar
∫₀² ∫₀² u · ½ du dv = ½ · 2 · 2 = 2
= 2
Confere sem integral: a região tem diagonais de comprimento 2 e 2, área 2 · 2/2 = 2, e centro em (1, 0). A integral de x + y é área × (x̄ + ȳ) = 2 · (1 + 0) = 2 ✓ · esquecer o ½ dá 4
exemplo 2.2 · a integral de Gauss: ∫ e^(−x²) dx de −∞ a +∞
- Chamar de I e elevar ao quadrado
I² = ∫ e−x² dx · ∫ e−y² dy = ∫∫ e−(x² + y²) dx dy, no plano inteiro
- Polares, com o r
∫₀2π ∫₀∞ e−r² r dr dθ
- O r faz a substituição sair
com u = r²: ∫₀∞ e−r² r dr = [−½ e−r²]₀∞ = ½ → I² = 2π · ½ = π
∫ e−x² dx = √π ≈ 1,7725
Confere: integração numérica de −8 a 8: 1,7724539 = √π ✓ · é o jacobiano r da aula 12 que torna essa integral possível
exemplo 2.3 · a área da elipse x²/a² + y²/b² ≤ 1
- Esticar um círculo
x = au · y = bv → a região vira u² + v² ≤ 1
- O jacobiano
det [ a 0 ; 0 b ] = ab
- Área
ab · (área do círculo unitário) = πab
área = πab · com a = 3, b = 2: 6π ≈ 18,85 · confere numericamente ✓
3 · Integral tripla em cartesianas
exemplo 3.1 · o volume do tetraedro x, y, z ≥ 0 e x + y + z ≤ 1
- Os limites, de dentro pra fora
z: 0 → 1 − x − y · y: 0 → 1 − x · x: 0 → 1
- Em z
∫₀1−x−y dz = 1 − x − y
- Em y
∫₀1−x (1 − x − y) dy = (1 − x)²/2
- Em x
∫₀¹ (1 − x)²/2 dx = 1/6
volume = 1/6 · confere: pirâmide = base (½) × altura (1) ÷ 3 = 1/6 ✓
exemplo 3.2 · o centro de massa do mesmo tetraedro (densidade constante)
- O momento em z
∫∫∫ z dV: em z, ∫ z dz = (1 − x − y)²/2 · em y: (1 − x)³/6 · em x: 1/24
- Dividir pelo volume
z̄ = (1/24)/(1/6) = 1/4
centro de massa em (1/4, 1/4, 1/4), pela simetria entre as três letras
Confere: todo tetraedro tem o centro na média dos quatro vértices: (0 + 1 + 0 + 0)/4 = 1/4 ✓
4 · Cilíndricas: quando tem eixo
exemplo 4.1 · o volume entre z = 0 e o paraboloide z = x² + y², dentro do cilindro x² + y² ≤ 4
- Em cilíndricas
z: 0 → r² · r: 0 → 2 · θ: 0 → 2π · dV = r dz dr dθ
- Em z e em r
∫₀² r² · r dr = 2⁴/4 = 4
- Em θ
4 · 2π = 8π
volume = 8π ≈ 25,13 · confere numericamente ✓
exemplo 4.2 · o momento de inércia de um cilindro maciço em torno do eixo
- O que eu quero
I = ∫∫∫ r² ρ dV — cada pedaço pesa pela distância ao eixo, ao quadrado
- Integrar
ρ ∫₀h ∫₀2π ∫₀R r² · r dr dθ dz = ρ · h · 2π · R⁴/4 = ρπhR⁴/2
- Em função da massa
M = ρπR²h → I = MR²/2
I = ½ MR² — o valor das tabelas de engenharia
A armadilha: esquecer o r do dV dá 2πρhR³/3 = (2/3) · M · R — em kg·m, e momento de inércia é kg·m²: a unidade acusa o pedaço errado. Numérico com R = 0,7, h = 1,9, ρ = 3: igual a ½MR² ✓
5 · Esféricas: quando tem centro
exemplo 5.1 · o “sorvete”: dentro da esfera ρ ≤ 1 e acima do cone φ = π/4
- Os limites
ρ: 0 → 1 · φ: 0 → π/4 · θ: 0 → 2π · dV = ρ² sen φ dρ dφ dθ
- As três integrais separam
∫₀¹ ρ² dρ = 1/3 · ∫₀π/4 sen φ dφ = 1 − cos(π/4) = 1 − √2/2 · ∫₀2π dθ = 2π
volume = (2π/3)(1 − √2/2) ≈ 0,6134 · confere numericamente ✓
exemplo 5.2 · ∫∫∫ e^((x² + y² + z²)^(3/2)) dV na bola de raio 1
- O que parece impossível
(x² + y² + z²)3/2 = ρ³
- O ρ² do dV vira o du
∫₀¹ eρ³ ρ² dρ = ⅓ [eρ³]₀¹ = (e − 1)/3
- Os ângulos
∫₀π sen φ dφ · ∫₀2π dθ = 2 · 2π = 4π
= (4π/3)(e − 1) ≈ 7,1975 · confere numericamente ✓
exemplo 5.3 · o centro de massa do hemisfério maciço z ≥ 0, raio R
- O momento em z
∫∫∫ z dV = ∫₀2π ∫₀π/2 ∫₀R (ρ cos φ) ρ² sen φ dρ dφ dθ
- Separando
R⁴/4 · ∫₀π/2 sen φ cos φ dφ (= ½) · 2π = πR⁴/4
- Dividir pelo volume
z̄ = (πR⁴/4) ÷ (2πR³/3) = 3R/8
centro de massa a 3R/8 da base
Confere: 3/8 = 0,375 < 1/2 — mais perto da base, onde está a maior parte da massa ✓ · numérico com R = 1,6: 0,6000 = 3 · 1,6/8 ✓
Tentar a primitiva de ey² em vez de trocar a ordem. Trocar a ordem sem redesenhar e manter os mesmos limites. Esquecer o |J| na mudança de variáveis. Esquecer o r ou o ρ² sen φ. Escrever z em vez de ρ cos φ no centro de massa.
Integral que não sai é aviso de ordem errada. Sempre desenhe a região antes de mexer nos limites. Todo pedaço novo paga o jacobiano. E confira no fim com uma fórmula conhecida: volume de pirâmide, ½MR², área da elipse, média dos vértices.
- ∫₀¹ ∫ᵧ¹ ex² dx dy
- o volume da esfera de raio 2, em esféricas
- ∫∫∫ xyz dV no cubo [0, 1]³
- a massa do disco de raio 1 com densidade σ = x² + y²
- o volume abaixo de z = 4 − x² − y² e acima de z = 0
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1 · (e − 1)/2 ≈ 0,8591 (fatie em pé) · 2 · 32π/3 ≈ 33,51 · 3 · 1/8 · 4 · π/2 ≈ 1,571 (∫∫ r² · r dr dθ) · 5 · 8π ≈ 25,13 (∫∫ (4 − r²) r dr dθ)Integral que não sai pede outra ordem ou outra coordenada. Desenhe a região, escolha o corte que endireita, pague o jacobiano, e confira o resultado com uma fórmula que você já conhece.