← Cálculo · Cálculo 3 · aula 15 · nível ITA

Nível ITA: integrais duplas e triplas

A metade integral da ementa, em exemplos resolvidos: a integral que só sai trocando a ordem, o jacobiano fora das polares, a integral de Gauss, e os sólidos em cilíndricas e esféricas.

começar
de onde vem o nível · e o que esta aula não é

A ementa oficial da MAT-22 · Cálculo Diferencial e Integral II do ITA termina em integrais duplas e triplas, com a bibliografia de Apostol, Stewart e Guidorizzi. Os exemplos abaixo são meus, do tipo clássico desses livros e no nível dessa ementa — não são questões de prova do ITA, que não estão publicadas. A metade de derivadas está na aula 14; o dA e o jacobiano básico, na aula 12.

ementa e bibliografia: página oficial da disciplina MAT-22 no site do ITA (ita.br/ocw/mat22). Todas as respostas foram conferidas por integração numérica antes de publicar.

1 · Inverter a ordem quando a integral não sai

∫ ey² dy não tem primitiva que se escreva com funções elementares. Numa prova, isso é recado: a ordem está errada de propósito. Redesenhe a região e fatie no outro sentido.

A mesma região, fatiada dos dois jeitos

região 0 ≤ x ≤ y ≤ 1 · a função é e^(y²) · o valor certo é (e − 1)/2 ≈ 0,8591

exemplo 1.1 · ∫₀¹ ∫ₓ¹ e^(y²) dy dx

  1. Desenhar a região

    x de 0 a 1 e, pra cada x, y de x a 1 → o triângulo 0 ≤ xy ≤ 1

  2. Fatiar deitado

    y de 0 a 1 e, pra cada y, x de 0 a y → ∫₀¹ ∫₀y ey² dx dy

  3. Por dentro, em x

    ey² não depende de x: ∫₀y ey² dx = y ey²

  4. Por fora, com u = y²

    ∫₀¹ y ey² dy = ½ [ey²]₀¹ = (e − 1)/2

= (e − 1)/2 ≈ 0,8591

Confere: integração numérica na ordem original: 0,859141 ✓ · o y que “apareceu” no passo 3 é o comprimento da fatia — foi ele que salvou a substituição

exemplo 1.2 · ∫₀¹ ∫ᵧ¹ sen(x²) dx dy

  1. A região

    y de 0 a 1, x de y a 1 → 0 ≤ yx ≤ 1

  2. Fatiar em pé

    ∫₀¹ ∫₀x sen(x²) dy dx = ∫₀¹ x sen(x²) dx

  3. Com u = x²

    ½ [−cos u]₀¹ = (1 − cos 1)/2

= (1 − cos 1)/2 ≈ 0,2298 · confere numericamente: 0,229849 ✓

exemplo 1.3 · a área entre y = x² e y = x, nas duas ordens

  1. Onde se cruzam

    x² = xx = 0 e x = 1; entre eles, x fica em cima

  2. Em pé

    ∫₀¹ ∫x²x dy dx = ∫₀¹ (xx²) dx = 1/2 − 1/3 = 1/6

  3. Deitado

    pra cada y, x vai de y (reta) a √y (parábola): ∫₀¹ (√yy) dy = 2/3 − 1/2 = 1/6

área = 1/6 · a armadilha: deitado, os limites de x são a curva inversa (√y), não a mesma fórmula

2 · Mudança de variáveis além das polares

dx dy = |∂(x, y)/∂(u, v)| du dv. Escolha u e v que endireitem a região, e escreva x e y em função deles pra calcular o jacobiano.

exemplo 2.1 · ∫∫ (x + y) dA no quadrado inclinado 0 ≤ x + y ≤ 2, 0 ≤ x − y ≤ 2

  1. As novas variáveis

    u = x + y (0 → 2) · v = xy (0 → 2): a região vira um quadrado

  2. Voltar pra x e y

    x = (u + v)/2 · y = (uv)/2

  3. O jacobiano

    det [ ½ ½ ; ½ −½ ] = −¼ − ¼ = −½ → |J| = ½

  4. Integrar

    ∫₀² ∫₀² u · ½ du dv = ½ · 2 · 2 = 2

= 2

Confere sem integral: a região tem diagonais de comprimento 2 e 2, área 2 · 2/2 = 2, e centro em (1, 0). A integral de x + y é área × ( + ȳ) = 2 · (1 + 0) = 2 ✓ · esquecer o ½ dá 4

exemplo 2.2 · a integral de Gauss: ∫ e^(−x²) dx de −∞ a +∞

  1. Chamar de I e elevar ao quadrado

    I² = ∫ ex² dx · ∫ ey² dy = ∫∫ e−(x² + y²) dx dy, no plano inteiro

  2. Polares, com o r

    ∫₀ ∫₀ er² r dr

  3. O r faz a substituição sair

    com u = r²: ∫₀ er² r dr = [−½ er²]₀ = ½I² = 2π · ½ = π

∫ ex² dx = √π ≈ 1,7725

Confere: integração numérica de −8 a 8: 1,7724539 = √π ✓ · é o jacobiano r da aula 12 que torna essa integral possível

exemplo 2.3 · a área da elipse x²/a² + y²/b² ≤ 1

  1. Esticar um círculo

    x = au · y = bv → a região vira u² + v² ≤ 1

  2. O jacobiano

    det [ a 0 ; 0 b ] = ab

  3. Área

    ab · (área do círculo unitário) = πab

área = πab · com a = 3, b = 2: 6π ≈ 18,85 · confere numericamente ✓

3 · Integral tripla em cartesianas

exemplo 3.1 · o volume do tetraedro x, y, z ≥ 0 e x + y + z ≤ 1

  1. Os limites, de dentro pra fora

    z: 0 → 1 − xy · y: 0 → 1 − x · x: 0 → 1

  2. Em z

    ∫₀1−xy dz = 1 − xy

  3. Em y

    ∫₀1−x (1 − xy) dy = (1 − x)²/2

  4. Em x

    ∫₀¹ (1 − x)²/2 dx = 1/6

volume = 1/6 · confere: pirâmide = base (½) × altura (1) ÷ 3 = 1/6 ✓

exemplo 3.2 · o centro de massa do mesmo tetraedro (densidade constante)

  1. O momento em z

    ∫∫∫ z dV: em z, ∫ z dz = (1 − xy)²/2 · em y: (1 − x)³/6 · em x: 1/24

  2. Dividir pelo volume

    = (1/24)/(1/6) = 1/4

centro de massa em (1/4, 1/4, 1/4), pela simetria entre as três letras

Confere: todo tetraedro tem o centro na média dos quatro vértices: (0 + 1 + 0 + 0)/4 = 1/4 ✓

4 · Cilíndricas: quando tem eixo

exemplo 4.1 · o volume entre z = 0 e o paraboloide z = x² + y², dentro do cilindro x² + y² ≤ 4

  1. Em cilíndricas

    z: 0 → r² · r: 0 → 2 · θ: 0 → 2π · dV = r dz dr

  2. Em z e em r

    ∫₀² r² · r dr = 2⁴/4 = 4

  3. Em θ

    4 · 2π =

volume = 8π ≈ 25,13 · confere numericamente ✓

exemplo 4.2 · o momento de inércia de um cilindro maciço em torno do eixo

  1. O que eu quero

    I = ∫∫∫ r² ρ dV — cada pedaço pesa pela distância ao eixo, ao quadrado

  2. Integrar

    ρ ∫₀h ∫₀ ∫₀R r² · r dr dθ dz = ρ · h · 2π · R⁴/4 = ρπhR⁴/2

  3. Em função da massa

    M = ρπR²hI = MR²/2

I = ½ MR² — o valor das tabelas de engenharia

A armadilha: esquecer o r do dV dá 2πρhR³/3 = (2/3) · M · R — em kg·m, e momento de inércia é kg·m²: a unidade acusa o pedaço errado. Numérico com R = 0,7, h = 1,9, ρ = 3: igual a ½MR² ✓

5 · Esféricas: quando tem centro

exemplo 5.1 · o “sorvete”: dentro da esfera ρ ≤ 1 e acima do cone φ = π/4

  1. Os limites

    ρ: 0 → 1 · φ: 0 → π/4 · θ: 0 → 2π · dV = ρ² sen φ dρ dφ dθ

  2. As três integrais separam

    ∫₀¹ ρ² dρ = 1/3 · ∫₀π/4 sen φ dφ = 1 − cos(π/4) = 1 − √2/2 · ∫₀ dθ = 2π

volume = (2π/3)(1 − √2/2) ≈ 0,6134 · confere numericamente ✓

exemplo 5.2 · ∫∫∫ e^((x² + y² + z²)^(3/2)) dV na bola de raio 1

  1. O que parece impossível

    (x² + y² + z²)3/2 = ρ³

  2. O ρ² do dV vira o du

    ∫₀¹ eρ³ ρ² dρ = ⅓ [eρ³]₀¹ = (e − 1)/3

  3. Os ângulos

    ∫₀π sen φ dφ · ∫₀ dθ = 2 · 2π =

= (4π/3)(e − 1) ≈ 7,1975 · confere numericamente ✓

exemplo 5.3 · o centro de massa do hemisfério maciço z ≥ 0, raio R

  1. O momento em z

    ∫∫∫ z dV = ∫₀ ∫₀π/2 ∫₀R (ρ cos φ) ρ² sen φ dρ dφ dθ

  2. Separando

    R⁴/4 · ∫₀π/2 sen φ cos φ dφ (= ½) · 2π = πR⁴/4

  3. Dividir pelo volume

    = (πR⁴/4) ÷ (2πR³/3) = 3R/8

centro de massa a 3R/8 da base

Confere: 3/8 = 0,375 < 1/2 — mais perto da base, onde está a maior parte da massa ✓ · numérico com R = 1,6: 0,6000 = 3 · 1,6/8 ✓

os erros que derrubam nessa metade da ementa

Tentar a primitiva de ey² em vez de trocar a ordem. Trocar a ordem sem redesenhar e manter os mesmos limites. Esquecer o |J| na mudança de variáveis. Esquecer o r ou o ρ² sen φ. Escrever z em vez de ρ cos φ no centro de massa.

a correção

Integral que não sai é aviso de ordem errada. Sempre desenhe a região antes de mexer nos limites. Todo pedaço novo paga o jacobiano. E confira no fim com uma fórmula conhecida: volume de pirâmide, ½MR², área da elipse, média dos vértices.

pra treinar · no mesmo nível
  1. ∫₀¹ ∫ᵧ¹ ex² dx dy
  2. o volume da esfera de raio 2, em esféricas
  3. ∫∫∫ xyz dV no cubo [0, 1]³
  4. a massa do disco de raio 1 com densidade σ = x² + y²
  5. o volume abaixo de z = 4 − x² − y² e acima de z = 0
ver as respostas1 · (e − 1)/2 ≈ 0,8591 (fatie em pé) · 2 · 32π/3 ≈ 33,51 · 3 · 1/8 · 4 · π/2 ≈ 1,571 (∫∫ r² · r dr dθ) · 5 · 8π ≈ 25,13 (∫∫ (4 − r²) r dr dθ)
pra levar

Integral que não sai pede outra ordem ou outra coordenada. Desenhe a região, escolha o corte que endireita, pague o jacobiano, e confira o resultado com uma fórmula que você já conhece.

Cálculo 3 · aula 15 · nível ITA · exemplos escritos para esta aula, no nível da ementa da MAT-22; não são questões de prova do ITA