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Philadelphia, 2015: a proteção que olhava só pra um lado

A mesma curva tinha trava automática pra quem vinha de um lado e nenhuma pra quem vinha do outro. A razão estava numa conta que parecia certa — e numa suposição sobre o maquinista.

começar

Uma proteção projetada em cima de "ninguém vai passar de tal velocidade" só protege enquanto essa suposição valer. O acidente acontece exatamente no dia em que ela não vale.

O que aconteceu

Em 12 de maio de 2015, o trem de passageiros Amtrak 188, de Washington a Nova York, entrou na curva de Frankford Junction, na Philadelphia — limitada a 50 mph (80 km/h) — a 106 mph (171 km/h). O maquinista aplicou o freio de emergência, o trem caiu pra cerca de 102 mph e descarrilou dentro da curva. Oito passageiros morreram e 185 pessoas foram levadas a hospitais.

O NTSB (o órgão americano de investigação) concluiu que o maquinista acelerou por perda de consciência situacional — a atenção dele estava num aviso de rádio sobre outro trem atingido por um objeto — e que a falta do PTC (controle positivo de trem, que freia sozinho) contribuiu.

A proteção de um lado só

Depois de um acidente em Boston em 1990, a Amtrak e o órgão regulador revisaram as curvas do Corredor Nordeste onde um trem poderia descarrilar se o maquinista não reduzisse. Nessas curvas foi posto um ponto de mudança do sinal de cabine que obrigava a baixar pra 45 mph — e freava sozinho se o maquinista não baixasse. O critério era: a velocidade de aproximação passa da velocidade de tombamento da curva?

cálculo completo · o tamanho do excesso, em v²

  1. A exigência lateral cresce com o quadrado

    a mesma curva, o mesmo raio: a aceleração pra fora é proporcional a v², então comparar velocidades é comparar (v1/v2

  2. O que o projeto da proteção previa

    aproximação de 80 mph contra tombamento a 98: (80/98)² = 0,67 → um terço de folga

  3. O que o 188 fez

    106 mph contra o limite de 50: (106/50)² = 4,5 vezes a exigência pra qual a curva foi sinalizada

  4. No ponto do descarrilamento

    102 mph contra tombamento a 98: (102/98)² = 1,08 → 8% além do limite de tombar

o freio de emergência tirou só 4 mph antes da curva — não bastou pra voltar abaixo dos 98

Conta minha, com as velocidades do relatório do NTSB. A relação com v² vale pra comparar velocidades na mesma curva (mesmo raio e peralte); a velocidade de tombamento de 98 mph é do relatório.

o que falhou

A proteção automática existia, mas foi instalada só onde a velocidade "normal" de aproximação já passava do tombamento. No sentido leste a margem dependia de o maquinista respeitar 80 mph na reta — e ele passou pra 106.

o que mudou

O NTSB concluiu que a proteção por sinal de cabine no sentido leste, ou o PTC completo, teria evitado o acidente. A Amtrak mudou o sinal logo depois e, em dezembro de 2015, ligou o PTC naquele trecho — ele supervisiona o limite de velocidade continuamente, nos dois sentidos.

pra treinar
  1. em km/h, quanto é 106 mph? e 98 mph?
  2. por quantas vezes a exigência lateral a 110 mph (aproximação no sentido oeste) passa a de 98 mph?
  3. compare com a aula 01: qual trem estava mais acima do limite da própria curva, em (v/limite)²?
ver as respostas1 · 106 × 1,609 ≈ 170,6 km/h; 98 × 1,609 ≈ 157,7 km/h · 2 · (110/98)² ≈ 1,26 → 26% além · 3 · Santiago (179/80)² = 5,0; Philadelphia (106/50)² = 4,5 — os dois perto de cinco vezes
de onde vêm os números
pra levar

Proteção projetada em cima de uma suposição de comportamento humano tem o tamanho da suposição. Onde passar do limite mata, a trava tem que valer pra qualquer velocidade e em qualquer sentido.

Ferrovia · aula 02 · números do relatório RAR-16/02 do NTSB; contas minhas, conferidas numericamente