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Santiago de Compostela, 2013: 179 km/h numa curva de 80

Uma reta de 4,4 km, uma curva limitada a 80 km/h, e um trem que chegou nela a mais que o dobro. A física da curva explica por que o dobro da velocidade não é o dobro do problema.

começar

Na curva, o que empurra o trem pra fora cresce com o quadrado da velocidade. 179 km/h não é 2,2 vezes o problema de 80 km/h — é 5 vezes, e depois de descontar o peralte, 11.

O que aconteceu

Em 24 de julho de 2013, o trem Alvia 150/151, de Madri a Ferrol, descarrilou na curva de entrada da Bifurcação A Grandeira, em Angrois, perto de Santiago de Compostela. Morreram 80 pessoas. O relatório final da CIAF (a comissão espanhola de investigação de acidentes ferroviários) concluiu que a causa foi o excesso de velocidade: o trem circulava a 179 km/h numa curva limitada a 80 km/h.

A curva de Angrois na sua mão

mexa na velocidade · em cima, a aceleração que sobra depois do peralte (em g); embaixo, quanto trilho o freio precisa pra chegar a 80 km/h

A conta da curva

Pra fazer uma curva de raio R a velocidade v, alguma coisa precisa puxar o trem pro centro com aceleração v²/R. Parte disso quem dá é o peralte: o trilho de fora mais alto inclina o trem, e o próprio peso ajuda a puxar pra dentro, com g · h/s (h = diferença de altura entre os trilhos, s = distância entre os centros deles). O resto — a aceleração não compensada — vai pra roda contra o trilho e pro passageiro contra a parede.

cálculo completo · a 80 km/h e a 179 km/h, na curva de 402 m

  1. O que o peralte compensa

    bitola ibérica de 1668 mm → centros dos trilhos a s ≈ 1,73 m · g·h/s = 9,81 × 0,130 / 1,73 = 0,74 m/s²

  2. A 80 km/h

    80 km/h = 22,2 m/s → v²/R = 22,2² / 402 = 1,23 m/s² → sobra 1,23 − 0,74 = 0,49 m/s² (0,05 g)

  3. A 179 km/h

    179 km/h = 49,7 m/s → v²/R = 49,7² / 402 = 6,15 m/s² → sobra 6,15 − 0,74 = 5,41 m/s² (0,55 g)

  4. Comparar

    (179/80)² = 5,0 vezes a aceleração total · 5,41 / 0,49 = 11 vezes a que o peralte não cobre

a 179 km/h, mais da metade de um g empurrava o trem pra fora da curva — onze vezes o que a curva foi feita pra aguentar a 80

Conta minha, com raio, peralte e velocidades do relatório da CIAF; a distância entre centros dos trilhos (1,73 m) é aproximada a partir da bitola. O relatório não publica um "limite de tombamento" pra comparar, então a aula não inventa um.

cálculo completo · quanto trilho o freio precisava

  1. A desaceleração que o trem conseguiu

    de 195 km/h (54,2 m/s) no PK 84+176 a 179 km/h (49,7 m/s) no PK 84+413, em 237 m: a = (54,2² − 49,7²) / (2 × 237) ≈ 0,97 m/s²

  2. Quanto precisava pra chegar a 80

    d = (54,2² − 22,2²) / (2 × 0,97) ≈ 1 250 m

  3. Quanto tinha

    do sinal E7 (84+176) ao início da curva (84+228): 52 m

  4. A ligação

    100 s a cerca de 195 km/h ≈ 5,4 km percorridos com a atenção dividida — mais que a reta inteira

o freio precisava começar uns 1,2 km antes do ponto em que começou

Conta minha, supondo a desaceleração constante e igual à medida entre os dois pontos do relatório. É uma estimativa pra ter a ordem de grandeza, não o cálculo de frenagem da CIAF.

o que falhou

A redução de quase 200 para 80 km/h dependia só da atenção do maquinista: os sinais estavam em via livre, e o sistema em serviço no trecho não supervisionava aquele limite de velocidade. Uma distração de 100 segundos bastou.

o princípio

Onde uma falha humana leva direto à catástrofe, o limite precisa de uma proteção automática que freie sozinha. As duas primeiras recomendações da CIAF à Adif foram nessa linha: sinalizar na via, com placas fixas, toda redução de velocidade acima de um certo tamanho; e, nas reduções grandes, instalar aos poucos balizas que ajudem a controlar a velocidade e freiem o trem se ele puder passar do máximo do trecho seguinte.

pra treinar
  1. qual a aceleração não compensada na curva de Angrois a 120 km/h?
  2. a que velocidade a aceleração total v²/R seria o dobro da de 80 km/h?
  3. com 0,97 m/s², de 195 km/h, onde o trem pararia de vez?
ver as respostas1 · 33,3²/402 = 2,76 m/s² − 0,74 = 2,02 m/s² (0,21 g) · 2 · 80 × √2 ≈ 113 km/h — dobrar a força é só 41% a mais de velocidade · 3 · 54,2² / (2 × 0,97) ≈ 1 510 m
de onde vêm os números
pra levar

Na curva, a exigência cresce com v². O peralte cobre uma parte fixa; todo o excesso vai pra roda e pro trilho. E freio precisa de distância: a 195 km/h, chegar a 80 pede mais de um quilômetro — quem decide isso tem que ser uma proteção automática, não a memória de ninguém.

Ferrovia · aula 01 · números do relatório final da CIAF; contas minhas, conferidas numericamente