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Aulas de energia

Minha trilha pra entender energia de verdade, uma coisa de cada vez, no meu ritmo. Cada aula é construída sobre a anterior. Aprender construindo, não decorando.

começar

trilha · o mapa

(a trilha pode mudar — é minha.)

1 Efeito Seebeck: por que o TEG vira diferença de temperatura em eletricidade

O TEG transforma uma diferença de temperatura em corrente elétrica, porque o calor empurra os elétrons de um lado pro outro.

O que acontece por dentro

Dentro do material do TEG existe um monte de elétrons livres. Elétron é energia elétrica em pessoa. Normalmente ficam espalhados e quietos. Quando encosto um lado na pele, aquele lado esquenta. Calor é agitação: os elétrons do lado quente se mexem cheios de energia e fogem pro lado frio, onde se acumulam. Um lado fica com carga negativa sobrando, o outro faltando. Isso é uma pilha. Essa diferença é a tensão. Ligo um fio → os elétrons correm pra equilibrar → corrente.

quente frio tensão: elétrons sobrando no lado frio sensor
Efeito Seebeck · vermelho é quente, azul é frio, as bolinhas amarelas são elétrons, e o sensor acende verde quando passa corrente. O calor agita os elétrons; do lado frio eles se mexem menos e se acumulam. Esse desnível é a tensão, e pelo fio ele vira corrente. Troca os lados:

Por que "mais gelado" sozinho não funciona

  • Dois lados quentes → todos agitados igual → ninguém foge → sem tensão.
  • Dois lados frios → ninguém se mexe → sem tensão.
  • Um quente E um frio → o desnível empurra numa direção só → gera.

O TEG não vive de temperatura. Vive da diferença.

A imagem que gruda

O TEG é uma cachoeira de elétrons. Água parada não move o moinho; água caindo, sim. A diferença de temperatura é a altura da queda. Sem altura, sem energia.

O fecho bonito

Passei a noite querendo "não deixar a energia se espalhar". O TEG faz o contrário: usa a energia se espalhando (elétrons fugindo do calor) pra gerar. A dispersão que eu queria impedir é o que faz o colhedor funcionar. A segunda lei não é inimiga — é o motor do projeto.

Nome e data

Efeito Seebeck, descoberto por Thomas Seebeck em 1821. Base dos termopares e TEGs.

O que ensina pro projeto

Carcaça mantém um lado quente (pele) e outro frio (ar). Corpo (~37°C) é fonte boa porque mantém o quente sempre. Dia quente colhe menos (menos diferença pro ar).

2 O que é energia, na real

Energia é a capacidade de causar mudança — o que faz qualquer coisa acontecer.

O que ela é

Não é um objeto que se segura. É uma propriedade das coisas — um número do "quanto isso pode fazer acontecer". Só dá pra ver ela fazendo coisa.

A grande lei

Energia nunca é criada nem destruída. Só muda de forma. Primeira lei da termodinâmica. "Entra, gera; não entra, não gera."

As formas (a mesma moeda, roupas diferentes)

Movimento (cinética), posição/guardada (potencial), calor (térmica = partículas tremendo), química (ligações: comida, combustível, bateria), elétrica (cargas em movimento), luz/radiação, nuclear.

Trocando de roupa

Sol → planta guarda → eu como → músculo move → corpo esquenta → espalha. Mesma energia, seis formas. Nada criado, nada sumido.

O pedágio

Toda troca perde um pouco como calor. Nenhuma é 100%. Segunda lei.

A imagem que gruda

Energia é como dinheiro: a quantia total é sempre a mesma, mas troca de moeda. Cada troca no câmbio tem uma taxinha. Ninguém fica mais rico trocando.

O que ensina pro projeto

O TEG é um trocador de roupa da energia: calor → elétrica. Meu projeto é conversão de forma. Eu não crio energia — sou um trocador de formas. É a profissão do inventor.

3 Como funciona um gerador a gasolina

Queima combustível pra girar um eixo, e o giro vira eletricidade — energia trocando de roupa quatro vezes.

A cadeia (a foto)

[ Gasolina ] → [ Explosão ] → [ Pistão + eixo ] → [ Alternador ]
  química        calor          movimento          eletricidade
  • Elo 1 (química→calor): faísca acende gasolina+ar no cilindro fechado. Explosão controlada.
  • Elo 2 (calor→movimento): a explosão empurra o pistão; o virabrequim vira sobe-desce em giro. Igual pedalar.
  • Elo 3: eixo girando com força. Até aqui, igual motor de carro.
  • Elo 4 (movimento→eletricidade): o alternador gira ímã perto de bobina de cobre → empurra elétrons → corrente. É o contrário do motor elétrico.

O pedágio

Desperdiça MUITO: só ~20-30% vira eletricidade útil. O resto (70-80%) vira calor, barulho, vibração. Dá pra ouvir e sentir a segunda lei.

Pra onde vai a energia do combustível

gerador a gasolina · a barra inteira é 100% do que entra no tanque

20–30% eletricidade70–80% calor, barulho, vibração
vira eletricidade depende do gerador vira calor, barulho, vibração
ver em tabela
destinoparte da energia
eletricidade útil~20–30%
calor, barulho, vibração~70–80%

cálculo completo · 1 litro de gasolina no gerador

  1. O que eu quero saber

    De 1 litro de gasolina, quanto vira eletricidade e quanto vira calor perdido, em kWh.

  2. O que eu já sei
    • E = 32 MJ — energia em 1 L de gasolina (aula 4)
    • η = 20% a 30% — o rendimento do gerador (aula 3)
    • 1 kWh = 3,6 MJ
  3. Fórmulas

    EkWh = EMJ ÷ 3,6

    Eútil = η × E

    Eperdida = EEútil

  4. Passo 1 · converter

    E = 32 MJ ÷ 3,6 MJ/kWh = 8,89 kWh

  5. Passo 2 · a parte útil

    com 20%: 0,20 × 8,89 kWh = 1,78 kWh

    com 30%: 0,30 × 8,89 kWh = 2,67 kWh

  6. Passo 3 · a parte perdida

    com 20%: 8,89 − 1,78 = 7,11 kWh

    com 30%: 8,89 − 2,67 = 6,22 kWh

De cada litro: 1,8 a 2,7 kWh viram eletricidade e 6,2 a 7,1 kWh viram calor.

Confere: 1,78 + 7,11 = 8,89 ✓ · 2,67 + 6,22 = 8,89 ✓ · unidade: MJ ÷ (MJ/kWh) = kWh ✓. Esse calor que sobra é o que o TEG pesca.

O que ensina (amarra tudo)

O calor e a vibração que ele joga fora são o que o TEG e o piezo colhem. Eu poderia grudar um TEG num gerador e colher parte do calor desperdiçado.

3.5 O mesmo motor, vários combustíveis

Gasolina não tem nada de mágico — é só um jeito de guardar energia química. Qualquer coisa que libere energia gira o eixo. Muda a fonte; a cadeia é a mesma.

1. Diesel: puxa só ar → comprime forte → comprimir esquenta → borrifa diesel no ar quente → acende sozinho (sem faísca) → empurra pistão. Rende mais por litro; motor reforçado. Caminhão usa.

2. Etanol/álcool: álcool+ar → faísca → explode → pistão. Do sol (cana → açúcar → fermenta). Queima limpo, um tico menos energia/litro. Renovável.

3. Gás (GNV/botijão): gás mistura fácil com ar → faísca → explode. Queima limpo; pegadinha é guardar (cilindro pesado).

4. Biogás: lixo/esterco num tanque fechado → bactérias sem oxigênio soltam metano → captura e queima igual GNV. "Energia que ia se perder" — o lixo ia soltar metano de qualquer jeito.

5. Hidrogênio: H₂+ar → faísca → combina com oxigênio → resíduo é água. Zero fumaça. Pegadinhas: difícil de guardar, e fabricar limpo gasta energia.

O padrão: 1, 2, 3, 5 são o mesmo motor — só troca o que queima. Diesel muda como acende; biogás muda de onde vem o gás. A espinha é sempre: química → calor/explosão → pistão → eixo. Um motor, cinco combustíveis. Pensar no princípio, não na peça.

4 A química de fabricar combustível (com cálculos)

Fabricar combustível é montar moléculas que guardam energia nas ligações — sempre custa energia pra fazer.

A ideia-chave

Energia química fica nas ligações entre átomos, como molas comprimidas. Fazer combustível é montar moléculas cheias dessas molas. Comprimir mola custa esforço → fabricar sempre gasta energia. Carregar o cofre.

Ler química (do zero)

Átomos = letras (C, H, O). Moléculas = palavras (H₂O = água). Reação = frase que tem que fechar: os átomos que entram são os que saem (conservação de massa).

Forma 1 — Fermentação (etanol)

Levedura + açúcar (cana) sem oxigênio → come o açúcar → sobra álcool + gás carbônico → destila. Energia veio do sol via planta. Pedágio: destilar gasta calor; nunca sai mais do que a planta guardou.

Forma 2 — Eletrólise (hidrogênio da água)

Corrente na água → quebra H₂O → hidrogênio de um lado, oxigênio do outro. Pedágio: gasta MAIS eletricidade quebrando do que recupera queimando. Por isso "motor a água" é perpétuo. Hidrogênio é cofre, não mina.

Cálculos

1 — a fermentação fecha? (contar átomos):

C₆H₁₂O₆ → 2 C₂H₅OH + 2 CO₂

esquerda:  C6 H12 O6
direita:   C6 H12 O6   → fecha

2 — a massa fecha (C=12, H=1, O=16): açúcar = 180; 2 álcool = 92; 2 CO₂ = 88; 92+88 = 180. Entra 180, sai 180.

3 — energia (MJ/litro): gasolina ~32, etanol ~21. 32÷21 ≈ 1,5 → álcool precisa de 1,5× mais volume. Por isso consome mais.

cálculo completo · a fermentação, átomo por átomo

  1. O que eu quero saber

    A reação C₆H₁₂O₆ → 2 C₂H₅OH + 2 CO₂ fecha em átomos e em massa?

  2. O que eu já sei
    • massas atômicas: C = 12, H = 1, O = 16
    • regra: o que entra = o que sai (conservação da massa)
  3. Passo 1 · contar átomos
    átomoentra: C₆H₁₂O₆sai: 2 C₂H₅OH + 2 CO₂
    C62×2 + 2×1 = 6
    H122×6 + 0 = 12
    O62×1 + 2×2 = 6
  4. Passo 2 · pesar cada molécula

    M(C₆H₁₂O₆) = 6×12 + 12×1 + 6×16 = 72 + 12 + 96 = 180 g/mol

    M(C₂H₅OH) = 2×12 + 6×1 + 1×16 = 24 + 6 + 16 = 46 g/mol

    M(CO₂) = 1×12 + 2×16 = 12 + 32 = 44 g/mol

  5. Passo 3 · somar cada lado

    entra: 1 × 180 = 180 g

    sai: 2 × 46 + 2 × 44 = 92 + 88 = 180 g

Fecha. Entram 180 g e saem 180 g; 6 C, 12 H e 6 O dos dois lados.

Confere: cuidado com o H do álcool: C₂H₅OH tem 5 H + 1 H do OH = 6 H. É o erro mais fácil nessa conta.

Energia guardada em 1 litro

megajoules por litro · valores aproximados do caderno

gasolina~32 MJ/L
etanol~21 MJ/L
010203040
ver em tabela
combustívelMJ/litrokWh/litro
gasolina~328,9
etanol~215,8

cálculo completo · gasolina × etanol, litro por litro

  1. O que eu quero saber

    Quantos litros de etanol dão a mesma energia que 1 L de gasolina — e até que preço o etanol compensa.

  2. O que eu já sei
    • gasolina: ≈ 32 MJ/L
    • etanol: ≈ 21 MJ/L
  3. Fórmulas

    Vetanol = Egasolina ÷ eetanol

    razão = eetanol ÷ egasolina

  4. Passo 1 · litros equivalentes

    V = 32 MJ ÷ 21 MJ/L = 1,52 L de etanol

  5. Passo 2 · a razão de energia

    21 ÷ 32 = 0,65665,6%

  6. Passo 3 · exemplo na bomba

    gasolina a R$ 6,00 → 0,656 × 6,00 = R$ 3,94

    preço de exemplo; abaixo disso o etanol dá mais energia por real

1 L de gasolina ≈ 1,5 L de etanol. Pela energia, o etanol só compensa se custar até ~66% do preço da gasolina.

Confere: MJ ÷ (MJ/L) = L ✓. Conta só de energia: o motor flex rende um pouco diferente — conferir.

O que amarra

Fabricar nunca cria energia — só muda a forma e guarda. Combustível é bateria química (etanol = sol guardado). A pergunta certa: "qual fonte barata/desperdiçada eu empacoto?". Biogás vence (lixo). Etanol vence onde a cana é barata.

C Como fazer os cálculos (o método + exemplos)

Cálculo não é decoreba — é uma ferramenta que me conta a verdade sobre a ideia ANTES de eu construir. Todo cálculo de engenharia segue os mesmos 4 passos.

Os 4 passos (servem pra qualquer área)

1 · O que eu quero saber?

A pergunta, com a unidade (litros? joules? kWh?).

2 · O que eu já sei?

Os dados, cada um com sua unidade.

3 · Qual fórmula liga uma coisa na outra?

A ponte entre o que sei e o que quero.

4 · Faço a conta e confiro a unidade

O número faz sentido? A unidade bateu?

O segredo: não decorar mil fórmulas. Aprender os 4 passos e resolver um problema de cada vez.

Unidades que aparecem sempre

  • Metro (m) — distância. Volume em m³.
  • Quilo (kg) — massa.
  • Joule (J) — energia (unidade mãe).
  • Watt (W) — potência = energia por segundo (J/s).
  • kWh — energia da conta de luz. 1 kWh = 3.600.000 J.
  • Úteis: 1 m³ de água = 1000 litros = 1000 kg. Gravidade ≈ 10.

Exemplo 1 — Reservatório de água (quanto cabe + quanta energia)

  • Quero saberlitros que cabem, e energia da água caindo.
  • Seitanque 2×2×1 m; queda de 5 m.
  • FórmulasVolume = C×L×A; Massa = m³ × 1000; Energia = massa × gravidade × altura.
  • ContaVolume = 4 m³ = 4000 L = 4000 kg. Energia = 4000×10×5 = 200.000 J ≈ 0,055 kWh.
  • Me ensinouágua PARADA num tanque é pouca energia (acende uma lâmpada um tempinho). Micro-hidro precisa de FLUXO constante, não de um tanque. O cálculo contou a verdade antes de eu errar.

cálculo completo · o tanque de água caindo

  1. O que eu quero saber

    Quanta água cabe no tanque e quanta energia ela dá caindo 5 metros.

  2. O que eu já sei
    • tanque: 2 m × 2 m × 1 m
    • queda: h = 5 m
    • densidade da água: ρ = 1000 kg/m³
    • gravidade: g10 m/s² (9,81 exato)
    • 1 kWh = 3 600 000 J
  3. Fórmulas

    V = C × L × A

    m = ρ × V

    E = m · g · h

  4. Passo 1 · volume

    V = 2 m × 2 m × 1 m = 4 m³ (= 4000 L)

  5. Passo 2 · massa

    m = 1000 kg/m³ × 4 m³ = 4000 kg

  6. Passo 3 · energia

    E = 4000 kg × 10 m/s² × 5 m = 200 000 J

  7. Passo 4 · em kWh

    200 000 J ÷ 3 600 000 J/kWh = 0,056 kWh = 56 Wh

  8. Passo 5 · traduzindo

    56 Wh ÷ 10 W = 5,6 h de uma lâmpada LED

56 Wh — uma lâmpada LED de 10 W acesa por 5,6 horas, e só se a turbina não perdesse nada.

Confere: kg · m/s² · m = N · m = J ✓ · com g = 9,81: 4000 × 9,81 × 5 = 196 200 J = 0,0545 kWh — arredondar g pra 10 muda só 1,9%.

Exemplo 2 — Biogás (esterco → gás → energia)

  • Quero saberenergia por dia do biodigestor.
  • Sei2 vacas × ~10 kg/dia; 1 kg boi → ~0,04 m³ gás; 1 m³ gás → ~2 kWh.
  • Contaesterco = 20 kg/dia; gás = 20×0,04 = 0,8 m³/dia; energia = 0,8×2 = 1,6 kWh/dia.
  • Me ensinou1,6 kWh/dia = iluminar + celular + um pouco de TV. Não chuveiro nem geladeira grande. Bate com a "verdade honesta". Pra mais → mais bicho ou mais fonte junto.

cálculo completo · o biodigestor de 2 vacas

  1. O que eu quero saber

    A energia por dia do biodigestor com 2 vacas, e a potência média que isso dá.

  2. O que eu já sei
    • esterco: 10 kg por vaca por dia
    • gás: 0,04 m³ por kg de esterco
    • energia: 2 kWh por m³ de gás
    • 1 dia = 24 h
  3. Fórmulas

    esterco = vacas × 10 kg/dia

    gás = esterco × 0,04 m³/kg

    E = gás × 2 kWh/m³

    P = E ÷ 24 h

  4. Passo 1 · esterco

    2 × 10 kg/dia = 20 kg/dia

  5. Passo 2 · gás

    20 kg/dia × 0,04 m³/kg = 0,8 m³/dia

  6. Passo 3 · energia

    0,8 m³/dia × 2 kWh/m³ = 1,6 kWh/dia

  7. Passo 4 · potência média

    P = 1,6 kWh ÷ 24 h = 0,0667 kW = 67 W

  8. De onde sai o 2 kWh/m³

    1 m³ de biogás × 60% de metano = 0,6 m³ de metano

    0,6 m³ × 10 kWh/m³ = 6 kWh de calor

    6 kWh × 30% (gerador) = 1,8 kWh elétricos ≈ 2

    60%, 10 kWh/m³ e 30% são valores típicos — conferir

1,6 kWh por dia — o mesmo que 67 W ligados o dia inteiro.

Confere: kg/dia × m³/kg = m³/dia ✓ · m³/dia × kWh/m³ = kWh/dia ✓ · kWh ÷ h = kW ✓

Um tanque de água caindo × um dia de biogás

kWh · o tanque dá essa energia uma vez; o biogás repete todo dia

tanque 4 m³, queda 5 m0,056 kWh
biogás, 2 vacas, 1 dia1,6 kWh
00,511,52
ver em tabela
fontekWhquando
tanque 4 m³, queda 5 m0,056uma vez
biogás, 2 vacas1,6todo dia

1,6 ÷ 0,056 ≈ 29 → um dia de biogás vale uns 29 tanques caindo.

Exemplo 3 — TEG no corpo (energia do calor do corpo)

  • Quero saberpotência de um TEG na pele.
  • SeiTEG ~4 cm²; ~50 µW por cm² com ~10°C de diferença.
  • Conta4 × 50 = 200 µW = 0,0002 W.
  • Me ensinou0,0002 W é muito pouco (LED quer 100× mais). Não acende LED direto, mas sensor dormindo quer ~1-10 µW → cabe. Por isso o design DORME quase o tempo todo e transmite raro.

O que o TEG dá × o que cada coisa pede

microwatts · escala de 10 em 10: cada marca vale 10× a anterior

sensor dormindo (pede)1–10 µW
TEG 4 cm² na pele (dá)200 µW
LED (pede)~20 mW
1 µW10 µW100 µW1 mW10 mW100 mW
ver em tabela
coisaµW
sensor dormindo1–10pede
TEG 4 cm² na pele200
LED~20 000pede

cálculo completo · o TEG no corpo

  1. O que eu quero saber

    Quanta potência um TEG de 4 cm² tira da pele — e se isso acende um LED ou alimenta um sensor.

  2. O que eu já sei
    • área: A = 4 cm²
    • na pele, com ~10 °C de diferença: 50 µW por cm²
    • LED pede ~100× o que o TEG dá
    • sensor dormindo pede 1 a 10 µW
    • 1 dia = 86 400 s
  3. Fórmulas

    P = A × p

    E = P × t

  4. Passo 1 · potência

    P = 4 cm² × 50 µW/cm² = 200 µW = 0,0002 W

  5. Passo 2 · o LED

    pede: 200 µW × 100 = 20 000 µW = 20 mW

    o TEG dá: 200 ÷ 20 000 = 1% do que o LED pede

  6. Passo 3 · o sensor

    200 µW ÷ 10 µW = 20×

    200 µW ÷ 1 µW = 200×

  7. Passo 4 · num dia

    E = 0,0002 W × 86 400 s = 17,3 J

200 µW: não acende LED direto, mas sobra de 20 a 200 vezes o que um sensor dormindo pede.

Confere: µW/cm² × cm² = µW ✓ · W × s = J ✓

O que amarra a Aula C

Três áreas diferentes (água, biogás, calor), OS MESMOS 4 PASSOS. Aprendi o método, não três coisas soltas. Nos três, o cálculo fez o principal: contou a verdade sobre a ideia antes de eu gastar tempo e dinheiro. Cálculo serve pra DECIDIR, não pra decorar.

(Área nova = seguir os 4 passos e adicionar o exemplo aqui embaixo.)

extra Energia do interior: o gerador que enche o tanque sozinho (biogás)

Pegar o gerador comum (que já funciona) e trocar a gasolina comprada por biogás de esterco e restos que a propriedade já produz de graça — energia pra família carente do interior sem depender de combustível comprado.

A ideia central

O gerador sempre funcionou. O problema era o cordão umbilical da gasolina (custa, e no interior é longe). Solução: fonte local e grátis. Mesmo gerador, combustível diferente.

Ranking da matéria-prima

  1. Porco — campeão, rende muito, liga rápido.
  2. Resto de comida/frutas — rende muito, mas azeda se for muito de uma vez.
  3. Boi — rende um pouco menos por kg, mas tem muito e é o mais estável (base boa).
  4. Galinha — forte, usar pouco e misturado.

Codigestão (misturar)

Boi de base + porco pra render + comida pra turbinar + galinha pouca. Como uma receita, cada um na medida.

UM tanque só

Separado por tipo seria PIOR: a mistura rende mais (os tipos se equilibram) e um tanque é mais simples. Um tanque, proporção certa.

O que dá errado (e como avisa)

Azedar (comida demais → alimentar aos poucos); seco demais (esterco puro → papa com água meio a meio); galinha demais (intoxica → pouca). O biodigestor avisa: gás cai ou cheiro azedo → parar de alimentar uns dias.

Passo a passo

Mistura no tanque fechado sem ar → bactérias comem dias/semanas → soltam metano (capturado em cima) → cano até o gerador/fogão. Bônus: o lodo é adubo de primeira, de graça.

A verdade honesta

Gás modesto: cozinhar + essencial (luz, celular, TV, geladeira pequena). Não casa cheia de eletrodoméstico. Mas tira da escuridão e do custo do botijão, e a fonte nunca acaba.

Regra de ouro

Não começar gigante. Tambor de teste (200L), errar pequeno, ver o gás sair, depois escalar.

extra 2 Biodigestor na prática: preparo, cálculos, tanque, material, segurança

1. Preparo (receita)

Esterco + água ~meio a meio (vira papa, não bloco). Porco/comida pra render; galinha pouca. Alimentar aos poucos. Fechado, sem ar.

2. Cálculos (explicam o ranking!)

Relação Carbono/Nitrogênio (C:N), ideal ~25-30:1.

  • Boi ≈ 24:1 → quase perfeito → base estável.
  • Porco ≈ 18:1 → bom, forte.
  • Galinha ≈ 10:1 → nitrogênio demais → pouca.
  • Fruta/roça → muito carbono → equilibram a galinha.

Carbono por nitrogênio de cada matéria-prima

C:N · quanto carbono pra cada 1 de nitrogênio · a faixa verde é a ideal, ~25–30

boi≈ 24
porco≈ 18
galinha≈ 10
fezes humanas≈ 8
0102030
faixa ideal 25–30fruta/roça: acima da faixa (o caderno não dá número)
ver em tabela
matéria-primaC:No que fazer
boi≈ 24base estável
porco≈ 18bom, forte
galinha≈ 10pouca
fezes humanas≈ 8misturar com carbono
faixa ideal25–30

Misturar = fazer a MÉDIA do C:N cair na faixa boa (codigestão).

Tamanho: material fica ~30 dias. 20 L/dia × 30 = 600 L + espaço do gás → tanque ~800-1000 L.

Gás: 1 kg boi → ~0,04 m³. 1 vaca (~10 kg/dia) → ~0,4 m³/dia. 1 m³ ≈ 2h fogão ou ~2 kWh.

cálculo completo · tamanho do tanque e gás de 1 vaca

  1. O que eu quero saber

    De que tamanho o tanque precisa ser, e quanto gás 1 vaca rende por dia.

  2. O que eu já sei
    • entra 20 L de mistura por dia
    • o material fica 30 dias dentro
    • 1 vaca = 10 kg de esterco/dia · 0,04 m³ de gás por kg
    • 1 m³ de gás ≈ 2 h de fogão ≈ 2 kWh
  3. Fórmulas

    Vmaterial = vazão × tempo

    ocupação = Vmaterial ÷ Vtanque

  4. Passo 1 · material dentro

    20 L/dia × 30 dias = 600 L

  5. Passo 2 · quanto sobra pro gás

    tanque de 800 L: 600 ÷ 800 = 75% cheio → 25% pro gás

    tanque de 1000 L: 600 ÷ 1000 = 60% cheio → 40% pro gás

  6. Passo 3 · gás de 1 vaca

    10 kg/dia × 0,04 m³/kg = 0,4 m³/dia

  7. Passo 4 · o que isso dá

    fogão: 0,4 m³ × 2 h/m³ = 0,8 h = 48 min/dia

    eletricidade: 0,4 m³ × 2 kWh/m³ = 0,8 kWh/dia

Tanque de 800 a 1000 L pra 600 L de material · 1 vaca ≈ 48 min de fogão ou 0,8 kWh por dia.

Confere: L/dia × dia = L ✓ · 0,8 h × 60 min/h = 48 min ✓

3. Tanques

Teste: tambor 200L vedado. Tubular: tubo de lona meio enterrado (barato). Cúpula de alvenaria: durável, mais caro.

4. Material

Lona geomembrana (PVC/PEAD) barato; alvenaria durável; tambor plástico pro teste; canos de PVC (nada de metal por dentro).

5. Segurança (importante)

  • Metano é inflamável/explosivo. Nada de chama/faísca perto da saída. Vazamento se acha com água e sabão, NUNCA fogo.
  • Vedar contra ar (oxigênio mata bactéria E metano+ar explode).
  • Primeiro gás (semanas iniciais) é CO₂/ar: ventilar fora. Usar quando a chama ficar azul e firme.
  • Gás sulfídrico (cheiro de ovo podre) é tóxico e corrói: filtro de palha de aço ajuda.
  • Alívio de pressão: válvula/respiro simples, não pode estufar sem saída.

extra 3 A biologia do biodigestor: os times de bactérias

O biogás não é gerado pelo esgoto nem pelas bactérias sozinhos — os dois precisam um do outro. Bactéria é o motor; matéria orgânica é a gasolina. Motor sem gasolina não roda. Gasolina sem motor não faz nada.

O processo tem 4 etapas, cada uma com seu time

  • 1 · Hidrólisequebra a matéria orgânica grande (proteína, gordura, carboidrato) em pedaços menores.
    Bactérias: Clostridium, Bacteroides, Ruminococcus
  • 2 · Acidogênesepega os pedaços menores e faz ácidos + CO₂ + hidrogênio.
    Bactérias: Lactobacillus, Streptococcus, E. coli
  • 3 · Acetogêneseconverte os ácidos em acetato + hidrogênio + CO₂ — preparando pro time final.
    Bactérias: Syntrophobacter, Syntrophomonas
  • 4 · Metanogênese (a estrela)pega o acetato e o hidrogênio e faz o METANO — o biogás.
    Bactérias: Methanosaeta, Methanosarcina, Methanobacterium

A imagem que gruda

É uma cozinha com 4 times em sequência. O primeiro pica os ingredientes, o segundo faz o caldo, o terceiro tempera, e o quarto faz o prato final — o metano. Se um time trava, o prato não sai.

Por que o biodigestor azeda (agora faz sentido)

Comida demais de uma vez → Etapa 2 produz ácido rápido demais → ambiente fica ácido → as metanogênicas (Etapa 4) ODEIAM ácido → elas param → sem metano. Por isso alimentar aos poucos: pra não matar o time 4.

Por que esterco de vaca liga rápido

O intestino da vaca já tem o time completo treinado — especialmente as metanogênicas. Colocar esterco fresco no galão é um transplante de bactérias pro biodigestor. É como colocar fermento no pão. O time chega pronto, é só trabalhar.

Bactéria = motor. Matéria orgânica = gasolina. Os dois são indispensáveis — um sem o outro é zero. Igual ao gerador a gasolina da aula 3: alternador sem combustível não roda; combustível sem alternador não faz nada.

extra 4 O corpo humano como biodigestor

O intestino grosso faz exatamente o que o galão vai fazer — mesma biologia, mesmas bactérias, mesmo gás.

O intestino grosso É um biodigestor

Biodigestor (galão):
comida entra → bactérias comem sem ar → metano sobe → válvula solta

Intestino grosso (corpo):
comida entra → bactérias comem sem ar → metano sobe → válvula solta

Produção humana: 500 ml a 1,5 litro de gás por dia, com até 10% de metano. Não dá pra fogão, mas o princípio é idêntico.

Por que feijão e repolho "dão mais gás"

São ricos em fibras que o intestino delgado não digere. Chegam intactos no intestino grosso e as bactérias fazem festa — produzem muito mais gás. É a mesma lógica do biodigestor sobrecarregado com comida demais de uma vez.

Por que esterco fresco funciona como "fermento"

O intestino da vaca já tem o time completo de bactérias. Colocar esterco fresco no galão é transplantar o microbioma intestinal da vaca pro biodigestor. A natureza usa o mesmo princípio em escalas diferentes.

O fecho bonito

A máquina de energia mais sofisticada que existe já está dentro do corpo — processando comida, gerando energia química, produzindo gás, regulando temperatura. 4 bilhões de anos de evolução otimizando. O biodigestor é só uma versão externa e maior do que o intestino já faz.

extra 5 O sistema completo: banheiro + cozinha + animal = energia + adubo + saneamento

Tudo que a casa e a propriedade jogam fora — esgoto, resto de comida, esterco — pode entrar num sistema integrado e sair como três coisas úteis: biogás, adubo e água pra irrigar.

O fluxo do sistema

Banheiro (fezes + urina)   ─┐
Cozinha (resto de comida)  ─┼→ Biodigestor fechado → Biogás (fogão/gerador)
Animal (esterco)           ─┘                      → Efluente (irrigar horta)
                                                   → Lodo (adubo na roça)

A tabela C:N do esgoto humano

  • Fezes ≈ 8:1 (nitrogênio alto, igual galinha) → misturar com carbono (resto de comida, serragem)
  • Urina = quase só nitrogênio puro → diluir bem

Onde isso já existe no Brasil

  • Fossa biodigestora EMBRAPA — desenvolvida pro semiárido nordestino. Esgoto do banheiro entra, biogás sai pra fogão, efluente irriga horta. Pesquisa: "fossa biodigestora EMBRAPA".
  • Índia (gobar gas) — milhões de famílias rurais usando esterco de vaca no fogão, sem botijão.
  • Estações de esgoto (SABESP) — mesma biologia, escala industrial.

Cuidados com esgoto humano

  • Efluente não é água limpa — não vai pra rio nem fonte. Pode irrigar árvore/plantação sem contato direto.
  • Lodo tem patógenos — precisa de 6 meses ao sol antes de usar como adubo.
  • Nunca abrir sem ventilação — gás sulfídrico (cheiro de ovo podre) é tóxico.

O que isso é: biomimética

Imitar o que a natureza já faz em todo pântano e rio — bactérias decompondo matéria orgânica, gerando gás, limpando a água. A engenharia copia e acelera. Teu projeto não é invenção do zero — é natureza otimizada.

Pra teu projeto do interior (sítio do cunhado)

Esterco de gado/porco + esgoto doméstico + resto de comida = mistura quase perfeita de C:N. Escala de uma propriedade rural já dá biogás suficiente pra cozinhar a família inteira e ter luz. É o gobar gas da Índia, versão brasileira.

extra 6 Eficiência do biodigestor: o que a ciência já sabe

Não é impossível aumentar a eficiência e reduzir o tamanho — é área de pesquisa ativa. O caminho não é descobrir biologia nova, é integrar o que já existe de forma que nunca foi feita pra família do interior.

O que já funciona (com evidência real)

1. Pré-tratamento (simples e barato)
Triturar ou picar o material antes de jogar no tanque aumenta a superfície de contato — as bactérias têm mais "área pra morder". Resultado: 20-40% mais biogás do mesmo material, sem mudar o tanque. Não é magia — é geometria.

2. Elementos traço (micronutrientes das bactérias)
As metanogênicas precisam de cobalto (Co), níquel (Ni), molibdênio (Mo) e ferro (Fe) como cofatores de enzimas — tipo vitaminas delas. Com o tempo, esses elementos somem e a produção cai. Suplementar com doses mínimas (baratas) pode recuperar e aumentar a produção. Pesquisa séria, não especulação.

3. Biochar (carvão vegetal poroso) — o mais promissor
Adicionar biochar ao biodigestor melhora a produção de metano em 15-30% em vários estudos. Por quê? O biochar tem poros microscópicos onde as bactérias se fixam melhor, e facilita a transferência de elétrons entre espécies diferentes — processo chamado DIET (Direct Interspecies Electron Transfer). Barato de fazer (carvão de madeira poroso), e é um dos campos mais ativos de pesquisa agora. Dá pra testar no galão comparando com e sem ele.

4. Temperatura controlada
Bactéria termofílica (50-60°C) produz mais gás mais rápido. Problema: aquecimento gasta energia. Solução no interior quente: captar calor solar pra aquecer o tanque — energia grátis resolvendo o problema.

Quanto biogás a mais cada truque dá

% a mais de gás, faixa citada no caderno · elementos traço e temperatura ficaram sem número

pré-tratamento+20 a 40%
biochar+15 a 30%
0%1020304050%
ver em tabela
truqueganho
pré-tratamento+20 a 40%
biochar+15 a 30%

Sobre fazer menor

As bactérias têm ritmo biológico — não aceleram além de um limite. Mas existe tecnologia que resolve por outro caminho: reter as bactérias no tanque por mais tempo enquanto o líquido flui.

Reator UASB (Upflow Anaerobic Sludge Blanket): água sobe de baixo pra cima passando por um "cobertor" de bactérias concentradas. As bactérias ficam; o líquido passa. Resultado: tanque muito menor pro mesmo volume processado. É o que as estações de esgoto usam. Mais complexo, mas buildável.

O espaço real (onde mora a oportunidade)

As pesquisas existem separadas, em laboratório. Ninguém juntou biochar + elementos traço + temperatura otimizada + retenção de bactéria numa versão simples, barata e robusta pra família do interior brasileiro. Esse produto não existe ainda como kit acessível. Esse é o espaço.

Não é descobrir biologia nova — é integrar o que já existe de um jeito que nunca foi feito pra esse público. Pegar o que existe e melhorar — o princípio de sempre.

O primeiro teste concreto

Comparar dois galões de 20L idênticos — um com biochar, um sem. Medir qual produz mais gás. Isso é um experimento real, documentável, que cabe no teu caderno de estudo e prova o conceito com dados teus.

extra 7 A química do metano: como ele é formado e como existe

Metano (CH₄) é a molécula mais simples com carbono — um C no centro, quatro H em volta — e é formado pelas bactérias metanogênicas de dois jeitos diferentes.

A molécula

CH₄ = 1 carbono + 4 hidrogênios. Gás leve, invisível, sem cheiro (o cheiro de "gás" é aditivo que empresas colocam — o metano puro não tem cheiro). Mais leve que o ar → sobe → se acumula no topo do tanque → é captado pelo cano.

um C no centro 4 H nas pontas de um tetraedro 109,5° entre as ligações
CH₄ · no papel parece uma cruz, mas a molécula é em 3D: os 4 hidrogênios ficam o mais longe possível uns dos outros.

Como é formado (dois caminhos)

Caminho 1 — Acetato (~70% do metano):

CH₃COO⁻ + H⁺ → CH₄ + CO₂
acetato → metano + gás carbônico

A bactéria pega o acetato (produto do time 3), quebra ele, e solta metano + CO₂.

Caminho 1 · o carbono da ponta fica com os seus 3 H e ganha o H⁺ (vira CH₄); o outro carbono fica com os 2 O (vira CO₂). Nenhum átomo some, nenhum aparece.

Caminho 2 — Hidrogênio + CO₂ (~30%):

CO₂ + 4H₂ → CH₄ + 2H₂O
gás carbônico + hidrogênio → metano + água

A bactéria "come" o hidrogênio que sobrou das etapas anteriores e combina com CO₂ pra fazer metano.

Caminho 2 · o C do CO₂ fica com 4 H (vira CH₄); cada O sai com 2 H (vira H₂O). Os 8 H que entram são os 8 H que saem.

Por que ele queima

Quando metano encontra oxigênio e uma faísca:

CH₄ + 2O₂ → CO₂ + 2H₂O + energia
metano + oxigênio → gás carbônico + água + calor e luz

As ligações C-H se quebram, formam novas ligações com oxigênio, e essa reorganização libera a energia guardada. Mesma reação da gasolina — molécula mais simples.

A queima · as ligações C-H se desfazem, os mesmos átomos se juntam com o oxigênio, e a diferença de energia sai como calor e luz.

cálculo completo · as três reações do metano fecham?

  1. O que eu quero saber

    Nas três reações, os átomos e a carga que entram são os que saem?

  2. O que eu já sei
    • massas: C = 12, H = 1, O = 16
    • carga: acetato −1, H⁺ +1
  3. Passo 1 · contar átomos
    reaçãoCHO
    CH₃COO⁻ + H⁺ → CH₄ + CO₂2 = 1+13+1 = 42 = 2
    CO₂ + 4H₂ → CH₄ + 2H₂O1 = 18 = 4+42 = 2
    CH₄ + 2O₂ → CO₂ + 2H₂O1 = 14 = 44 = 2+2
  4. Passo 2 · a carga do caminho 1

    entra: −1 + 1 = 0

    sai: 0 + 0 = 0

  5. Passo 3 · pesar a queima

    entra: CH₄ = 12 + 4×1 = 16 · 2 O₂ = 2 × (2×16) = 64 → 16 + 64 = 80 g

    sai: CO₂ = 12 + 2×16 = 44 · 2 H₂O = 2 × (2×1 + 16) = 36 → 44 + 36 = 80 g

As três fecham. Na queima, entram 80 g e saem 80 g.

Confere: 16 g de metano é 1 mol — exatamente o ponto de partida de Do metano ao movimento, onde esses 16 g viram ~16,6 kJ no pistão.

Fabricar combustível é montar moléculas com energia nas ligações (aula 4). O metano é exatamente isso — as bactérias montaram uma molécula C-H que guarda energia. A energia não foi colocada lá agora — foi o sol, via planta, via animal, via esterco, via bactéria. Quatro passos de conversão e a energia do sol virou metano no galão.

na mesma sala · Do metano ao movimento

Do metano ao movimento

Dezesseis gramas de metano viram trabalho numa explosão. A 2ª Lei espalha o que sobra — e um colhedor pesca parte de volta antes de tudo esfriar.

em 10 segundos
  • 16 g de metano → 16,6 kJ de trabalho no pistão, numa explosão.
  • A 2ª Lei espalha o resto. Do calor que sobra, só ~3,3 kJ era aproveitável.
  • O colhedor termoelétrico recupera ~1 kJ do que ia embora pelo escape.
TEG LED escape V = 5,0 L T = 734 K expansão: o gás empurra o pistão
O ciclo, em movimento. Faísca → o gás a 1200 K empurra o pistão de 1 para 10 litros e esfria até ~601 K → o pistão sobe e empurra o gás pro escape → no caminho, o TEG pesca parte do calor e acende o LED. A temperatura na tela segue a conta da peça 01; as velocidades estão fora de escala.

o protocolo, igual em todo cálculo

1 · o alvo

O que eu quero saber, com unidade.

2 · os dados

O que eu já sei, medido.

3 · a equação

A ponte que liga uma coisa à outra.

4 · a prova

A conta feita e a unidade batendo.

01 A explosão

trabalho é o gás empurrando o pistão

o alvo

Quanto trabalho mecânico (em Joules) o metano gera ao explodir e empurrar o pistão do gerador numa fração de segundo.

os dados

No instante da combustão, o gás está a 1200 K comprimido em 1 litro. Ele empurra o pistão até 10 litros rápido demais para trocar calor com as paredes. Isso é uma expansão adiabática.

a equação

A pressão cai enquanto o pistão desce, então o trabalho não é uma multiplicação simples: é a integral da pressão ao longo do volume. Pela 1ª Lei (sem troca de calor), ela colapsa nesta forma limpa:

T2 = T1 · (V1/V2)^(γ−1) = 1200 · (0,1)^0,3  ≈ 601 K

W  = n·R·(T1 − T2) / (γ − 1)
   = 1 · 8,314 · 599 / 0,3          ≈ 16 600 J
a prova

Dois caminhos independentes — pela temperatura e pelas pressões — dão o mesmo número. E a unidade fecha em Joules.

16,6 kJ de trabalho bruto

cálculo completo · o trabalho da explosão

  1. O que eu quero saber

    Quanto trabalho (em joules) 16 g de metano fazem ao empurrar o pistão de 1 para 10 litros.

  2. O que eu já sei
    • n = 1 mol (16 g de CH₄)
    • T₁ = 1200 K · V₁ = 1 L · V₂ = 10 L
    • γ = 1,3γ − 1 = 0,3
    • R = 8,314 J/(mol·K)
  3. Fórmulas

    T₂ = T₁ · (V₁/V₂)γ−1

    W = n · R · (T₁ − T₂) ÷ (γ − 1)

  4. Passo 1 · a razão dos volumes

    V₁/V₂ = 1 L ÷ 10 L = 0,1

  5. Passo 2 · a potência

    0,10,3 = 0,501

  6. Passo 3 · a temperatura final

    T₂ = 1200 K × 0,501 = 601 K

  7. Passo 4 · quanto esfriou

    T₁ − T₂ = 1200 K − 601 K = 599 K

  8. Passo 5 · o trabalho

    n · R · ΔT = 1 mol × 8,314 J/(mol·K) × 599 K = 4 980 J

    W = 4 980 J ÷ 0,3 = 16 600 J

W ≈ 16,6 kJ de trabalho bruto numa explosão.

Confere: mol × J/(mol·K) × K = J ✓ · na prática, com 25–35% de rendimento: 16,6 kJ × 0,30 ≈ 5 kJ no eixo.

Esse é o número do ciclo ideal. Na prática, atrito, combustão incompleta e o calor jogado fora derrubam o rendimento real para 25–35%. Dos 16,6 kJ, talvez ~5 kJ viram eixo girando.

02 A conta que ninguém escapa

calor é movimento sem direção

a ideia

Trabalho é movimento organizado: moléculas empurrando o pistão todas para o mesmo lado.

Calor é o oposto: moléculas se sacudindo em todas as direções, cujos empurrões se cancelam. A energia não some — ela perde o endereço.

Só dá para reaproveitar enquanto existe um desnível de temperatura.

a equação

A fumaça a 601 K ainda carrega ~10,8 kJ de calor. Mas o trabalho máximo que qualquer máquina do universo tira disso — a exergia — é bem menor, porque cada Joule vale menos conforme o gás esfria:

Wmáx = n·Cp·[(T1 − T0) − T0·ln(T1/T0)]  ≈ 3,33 kJ
só 30,7% do calor era aproveitável
a prova

O teto de Carnot desaba conforme a fumaça esfria até o ambiente:

601 K50,1%
500 K40,0%
400 K25,0%
350 K14,3%
300 K · ambiente0%

cálculo completo · quanto do calor ainda dava pra usar

  1. O que eu quero saber

    Quanto calor sobra na fumaça a 601 K, e quanto dele ainda poderia virar trabalho.

  2. O que eu já sei
    • n = 1 mol · γ = 1,3 · R = 8,314 J/(mol·K)
    • fumaça: T₁ = 601 K · ambiente: T₀ = 300 K
  3. Fórmulas

    Cv = R ÷ (γ − 1) · Cp = Cv + R

    Q = n · Cp · (T₁ − T₀)

    Wmáx = n · Cp · [(T₁ − T₀) − T₀ · ln(T₁/T₀)]

    Carnot: η = 1 − T₀/T

  4. Passo 1 · os calores específicos

    Cv = 8,314 ÷ 0,3 = 27,71 J/(mol·K)

    Cp = 27,71 + 8,314 = 36,03 J/(mol·K)

  5. Passo 2 · o calor na fumaça

    Q = 1 × 36,03 × (601 − 300) = 36,03 × 301 = 10 844 J ≈ 10,8 kJ

  6. Passo 3 · o logaritmo

    601 ÷ 300 = 2,003 → ln(2,003) = 0,6948

  7. Passo 4 · o colchete

    301 − 300 × 0,6948 = 301 − 208,44 = 92,56 K

  8. Passo 5 · o trabalho máximo

    Wmáx = 36,03 × 92,56 = 3 335 J ≈ 3,33 kJ

  9. Passo 6 · a fração

    3 335 ÷ 10 844 = 0,3075 → 30,7%

  10. Passo 7 · o teto de Carnot

    a 601 K: 1 − 300/601 = 50,1% · a 400 K: 1 − 300/400 = 25,0%

Dos 10,8 kJ de calor na fumaça, só 3,33 kJ (30,7%) ainda podiam virar trabalho.

Confere: J/(mol·K) × K = J ✓ · o resto não some: fica espalhado, sem desnível pra empurrar nada.

Perto do ambiente, o aproveitável despenca a zero. A energia continua toda ali — só ficou lisa demais para mover qualquer coisa.

03 Catando as sobras

o TEG transforma desnível em eletricidade

a ideia

O colhedor termoelétrico usa o efeito Seebeck: o gradiente de temperatura força elétrons a marchar na mesma direção. E elétrons marchando juntos é exatamente o que a eletricidade é.

os números

Um bom módulo comercial roda a ~10,8% de eficiência no pico de 601 K.

recupera ~0,4 a 1,2 kJ por explosão

Empilhar módulos em série resolve voltagem, não energia. Por isso são poucos:

  • LED branco — 1 módulo. Acende ~4,6 h com 1 kJ.
  • USB 5 V — 2 módulos, ou 1 + conversor.
  • Bateria de celular — ~36 explosões por carga cheia.
o pulo do gato

Como energia pontual, é um catador modesto. Mas pendurado num gerador que roda sem parar, muda de figura: se o escape carrega ~500 W de calor aproveitável, o TEG entrega ~54 W contínuos — um celular cheio em ~12 minutos, de graça.

cálculo completo · o que o TEG pesca

  1. O que eu quero saber

    Quanto o TEG recupera por explosão e ligado direto num gerador — e o que isso carrega.

  2. O que eu já sei
    • eficiência do módulo: η10,8%
    • calor na fumaça: Q10,8 kJ por explosão (peça 02)
    • escape contínuo: ~500 W de calor
    • bateria de celular suposta: 10 Wh
  3. Fórmulas

    ETEG = η × Q · PTEG = η × Pescape · t = E ÷ P

  4. Passo 1 · por explosão

    0,108 × 10,8 kJ = 1,17 kJ — o teto da faixa de 0,4 a 1,2 kJ

  5. Passo 2 · o LED

    4,6 h × 3600 s/h = 16 560 s

    1000 J ÷ 16 560 s = 0,060 W = 60 mW — o LED que cabe em 1 kJ

  6. Passo 3 · a bateria

    10 Wh × 3600 s/h = 36 000 J = 36 kJ

    36 kJ ÷ 1 kJ por explosão = 36 explosões

  7. Passo 4 · ligado no gerador

    0,108 × 500 W = 54 W contínuos

  8. Passo 5 · o celular

    10 Wh ÷ 54 W = 0,185 h × 60 = 11 min

    o texto diz ~12 min: a diferença é perda no carregador

Por explosão, ~1 kJ. Pendurado num gerador que não para, ~54 W de graça.

Confere: W × s = J ✓ · Wh ÷ W = h ✓

O TEG não é milagre, é catador de sobras. Vale a pena porque é energia que ia embora 100% pelo escapamento — melhor pescar 1 kJ de graça do que perder tudo.

para levar

Energia útil é movimento organizado: pistão, eixo, elétron. Calor é movimento bagunçado. O motor e o TEG são só máquinas que pescam um pouco de organização de volta — enquanto ainda existe um desnível para empurrar.

extra 8 Os modelos do átomo: de Dalton a Bohr

Cada modelo do átomo nasceu de um experimento que o anterior não explicava. A bola maciça virou pudim, o pudim virou núcleo com vazio em volta, e o vazio ganhou órbitas com nível de energia.

1807Dalton
++++1897Thomson
1911Rutherford
1913Bohr
1926Schrödinger
Os modelos numa linha do tempo. Amarelo é elétron, vermelho é carga positiva. Bola maciça → pudim → núcleo e vazio → órbitas → nuvem.

1. Dalton — bola de bilhar

No começo do século XIX, Dalton retomou a ideia dos gregos, só que agora com experimento. Pra ele, o átomo era uma esfera maciça, indivisível e indestrutível. Uma bola de bilhar.

maciça,sem nada dentro
Dalton · a bola de bilhar: uma peça só, que não se divide

2. Thomson — pudim de passas

Descobriu o elétron. Provou que o átomo podia ser dividido e que tinha carga elétrica. O átomo virou uma massa positiva com os elétrons (negativos) incrustados, como passas num pudim.

+++++++elétron (−)massapositiva (+)
Thomson · o pudim de passas: a massa é positiva, os elétrons são as passas

3. Rutherford — a folha de ouro

Bombardeou uma folha fina de ouro com partículas alfa. A maioria passou direto; umas poucas desviaram. Conclusão: o átomo não é maciço. Tem um núcleo pequeno, denso e positivo no centro, e muito espaço vazio em volta. A analogia é o modelo planetário.

fonte(alfa)folha de ouroa maioria passa retopoucas desviamquase nenhuma voltatela

passaram reto 0 · desviaram 0 · voltaram 0

Rutherford · se a maioria passa reto, o átomo é quase todo vazio; se uma ou outra volta, tem um núcleo pequeno e denso no meio. Na animação a volta está exagerada pra dar pra ver: no experimento de verdade, só cerca de 1 em 8 000 partículas voltava.

4. Bohr — níveis de energia

Aperfeiçoou o modelo de Rutherford. Os elétrons giram em volta do núcleo em órbitas específicas, e cada órbita tem o seu nível de energia definido.

+n = 1n = 2n = 3pula de nível:sai energia (luz)núcleo (+)elétron na órbita
Bohr · cada órbita tem o seu nível de energia; o elétron só muda de órbita pulando, e o pulo sai como luz. Na animação as velocidades estão fora de escala.

A linha do tempo

  • 1807 · Daltonesfera maciça — bola de bilhar
  • 1897 · Thomsondescobre o elétron — pudim de passas
  • 1911 · Rutherfordnúcleo pequeno e positivo, muito vazio — folha de ouro
  • 1913 · Bohrórbitas com nível de energia
  • 1926 · Schrödingero elétron vira nuvem de probabilidade — o passo que a anotação não tinha

Por que isso importa pra elétrica

A estrutura do átomo é a base pra entender por que um material conduz (elétron andando), como funciona um semicondutor e a física por trás dos sensores. Mas Bohr sozinho não fecha essa conta: o elétron dele é preso a um átomo só. Pra explicar o fio de cobre falta o quinto passo — Schrödinger, e o "mar" de elétrons livres do metal. Isso está na aula O modelo que parou em 1913, da sala de Elétrica.

Liga com a Aula 1: os "elétrons livres" que o calor empurra no TEG são esses do mar de elétrons.

Núcleo Neon · energia · o texto é do caderno do João; o que entra de novo aqui é a arrumação para a web, os gráficos, as caixas "conta conferida" e os desenhos dos modelos do átomo; "Do metano ao movimento" foi juntada aqui inteira