08 Um motor de 4 polos, 60 Hz, 15,5 N·m
120·f/p · ω = 2πn/60 · P = T·ω · η = P_útil / P_entrada
Os dois deslizes aparecem juntos, e o segundo esconde o primeiro:
Motor de 4 polos em 60 Hz → 1800 RPM no eixo
Torque de 15,5 N·m
Potência = 15,5 × 1800 = 27 900 W ≈ 28 kW
Um motor de 28 kW com 15,5 N·m de torque não existe. A conta inflou a potência em quase dez vezes — e o número saiu tão grande que ninguém desconfia da unidade, desconfia da máquina.
O segundo deslize é mais silencioso: 1800 RPM não é a rotação do eixo de um motor de indução. É a rotação do campo magnético girante. O eixo sempre fica um pouco atrás — e se ele alcançasse o campo, o motor deixaria de produzir torque.
Potência é torque vezes velocidade angular, e velocidade angular se mede em radianos por segundo, não em voltas por minuto. Uma volta são 2π radianos e um minuto são 60 segundos:
ω = 2π · n / 60 n em RPM, ω em rad/s
a 1800 RPM: ω = 6,2832 × 1800 / 60 = 188,5 rad/s
Então quem multiplica torque por RPM está multiplicando por um número 9,55 vezes maior do que deveria — porque 60/2π = 9,5493. Daí a fórmula prática que aparece nos catálogos:
P (W) = T (N·m) × n (RPM) / 9,5493
Do outro lado está a velocidade do campo. Os 120 da fórmula não são mágica: são 2 (cada par de polos é um ciclo completo) × 60 (segundos em um minuto):
n_s = 120 · f / p f em Hz, p = número de polos
4 polos, 60 Hz → n_s = 120 × 60 / 4 = 1800 RPM
4 polos, 50 Hz → n_s = 120 × 50 / 4 = 1500 RPM
É por isso que o mesmo motor gira mais devagar na Europa: a rotação não é do motor, é da rede. E é por isso que o inversor de frequência controla velocidade — ele muda o f da fórmula.
Falta o pedaço que o eixo perde:
- escorregamentoA diferença entre o campo e o eixo, em porcentagem: s = (n_s − n) / n_s. Em motor de indução comum fica entre 1% e 5% na carga nominal.
- por que ele existeO motor de indução induz corrente no rotor pela diferença de velocidade. Sem diferença, não há corrente induzida; sem corrente, não há torque.
- quando é zeroSó no motor síncrono, que tem campo próprio no rotor. Nele, e só nele, 120·f/p é a rotação do eixo.
As contas na ordem em que elas dependem uma da outra:
1 n_s = 120 · f / p a velocidade do CAMPO
2 n = n_s · (1 − s) a velocidade do EIXO
3 ω = 2π · n / 60 em rad/s, com o n do eixo
4 P_útil = T · ω watt de verdade
5 P_entrada = P_útil / η o que a rede fornece
6 perdas = P_entrada − P_útil calor, atrito, ventilação
Duas armadilhas dentro dessa lista:
- o ω do passo 3Usa a rotação real. Com a síncrona, a potência sai alguns por cento maior do que é.
- o η do passo 5Divide, não multiplica. Multiplicar por 0,965 dá a conta ao contrário: a entrada é sempre maior que a saída.
A bancada das quatro contas
mexa na frequência, nos polos, no torque e no rendimento · tudo conferido a cada toque
O caso completo, com os números do exemplo: 4 polos, 60 Hz, torque de 15,5 N·m no eixo e rendimento de 96,5%. Primeiro o campo e o eixo:
n_s = 120 × 60 / 4 = 1800 RPM (campo)
com s = 3%: n = 1800 × 0,97 = 1746 RPM (eixo)
Agora a potência, na velocidade síncrona — que é a conta do catálogo, antes de descontar o escorregamento:
ω = 2π × 1800 / 60 = 188,50 rad/s
P_útil = 15,5 × 188,50 = 2 921,7 W ≈ 2,9 kW
E o que a rede precisa entregar para isso sair no eixo:
P_entrada = 2 900 / 0,965 = 3 005,2 W
perdas = 3 005,2 − 2 900 = 105,2 W
Esses 105 W são o preço do trabalho: aquecem o cobre, o ferro, o mancal e o ar que o ventilador empurra. São 3,5% da entrada — é isso que "96,5% de rendimento" quer dizer, em watts.
Compare com a conta errada do começo:
errado 15,5 × 1800 = 27 900 W
certo 15,5 × 1800 / 9,5493 = 2 921,7 W
└─ 9,55 vezes menor
E o mesmo motor, na mesma carga, ligado numa rede de 50 Hz:
n_s = 1500 RPM → ω = 157,08 rad/s
P_útil = 15,5 × 157,08 = 2 434,7 W ≈ 2,4 kW
└─ 83% da potência de 60 Hz
O motor não ficou pior: ele está girando mais devagar, e potência é trabalho por segundo. Menos voltas por segundo, menos watts — com o mesmo torque.
os valores do exemplo (4 polos, 60 Hz, 15,5 N·m, 96,5%, ≈2,9 kW) vêm de uma conversa de estudo que eu trouxe para cá; refiz cada conta numericamente antes de publicar, e todas fecham. Não é a medição de um motor meu de bancada — é um exemplo numérico. O escorregamento de 1% a 5% é a faixa típica de motor de indução em carga nominal; o valor exato vem da placa e da curva do fabricante.