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Hatfield, 2000: o trilho em 300 pedaços

Nenhum trem passou do limite. Nenhum sinal falhou. O trilho é que já estava cheio de trincas — conhecidas — e se desfez debaixo de um trem a 185 km/h.

começar

Fadiga é a falha que não precisa de sobrecarga: cada roda que passa abre a trinca um pouco mais, com uma força que o trilho novo aguentaria sem problema. O defeito cresce em silêncio até a peça que sobra não aguentar mais.

O que aconteceu

Às 12h23 de 17 de outubro de 2000, um trem de passageiros que saiu de Londres (King's Cross) descarrilou na curva de Welham Green, perto de Hatfield, a cerca de 115 mph (185 km/h). O trilho de fora da curva — o trilho alto, o que mais apanha da roda — se partiu em mais de 300 pedaços ao longo de uns 35 m; depois, uns 44 m de trilho inteiro mas deslocado, e mais um trecho fragmentado. Quatro passageiros morreram e mais de setenta pessoas se feriram, quatro gravemente.

A causa imediata, segundo o relatório final: a fratura e a fragmentação do trilho, por múltiplas trincas de fadiga preexistentes — o que o relatório chama de RCF (fadiga por contato de rolamento) e GCC (trinca no canto do boleto, o gauge corner, onde o friso da roda encosta na curva).

O defeito era conhecido

cálculo completo · o tamanho do estrago, em tempo e em pedaço

  1. Quanto tempo o trem levou pra atravessar os 35 m

    115 mph = 51,4 m/s → 35 / 51,4 ≈ 0,68 s

  2. O tamanho médio de um pedaço

    35 m em mais de 300 pedaços → 3 500 cm / 300 ≈ 12 cm por pedaço, no máximo

  3. Por que o trilho alto

    na curva, a aceleração pra fora (v²/R, aula 01) é resistida pelo friso da roda contra o canto do trilho de fora: é ali que o contato é mais concentrado, e é ali que a trinca nasce

em menos de 7 décimos de segundo, 35 m de trilho viraram pedaços de palmo

Conta minha, com a velocidade, o comprimento e o número de pedaços do relatório. O relatório não dá a quantidade de passagens de roda que abriu as trincas, então a aula não inventa esse número.

o que falhou

O trilho foi medido, a trinca foi vista, e o procedimento permitia continuar retestando. Havia um plano pra recuperar o atraso da manutenção, mas o relatório registra que nele não havia avaliação de risco pra identificar os trilhos com mais chance de quebrar, nem restrição provisória de velocidade em nenhum dos locais com os defeitos mais graves.

o princípio

Defeito de fadiga tem que ter ação com prazo ligada ao tamanho da trinca: tanto de profundidade → reduz velocidade; mais que isso → troca. "Retestar" não é ação.

pra treinar
  1. a 185 km/h, quantos metros o trem percorre em 1 segundo?
  2. se a velocidade no trecho tivesse sido limitada a 20 mph (32 km/h), quanto tempo levaria pra atravessar os mesmos 35 m?
  3. por que a trinca de fadiga aparece no trilho de fora da curva, e não no de dentro?
ver as respostas1 · 185 / 3,6 ≈ 51,4 m · 2 · 20 mph = 8,94 m/s → 35 / 8,94 ≈ 3,9 s · 3 · porque é o friso da roda contra o canto do trilho de fora que segura o trem na curva; o contato ali é mais concentrado e se repete a cada roda
de onde vêm os números
pra levar

Fadiga não avisa com barulho: avisa no ensaio, e o ensaio só serve se o resultado obrigar a uma ação com prazo. Trinca conhecida e sem prazo é acidente com data em aberto.

Ferrovia · aula 04 · números do relatório final do Independent Investigation Board (ORR/HSE); contas minhas, conferidas numericamente