00 Quatro modelos e uma promessa
modelo atômico · elétron livre
A anotação listava os quatro modelos, cada um com a sua analogia:
1 Dalton bola de bilhar
2 Thomson pudim de passas
3 Rutherford planetário, núcleo pequeno e positivo
4 Bohr elétrons em órbitas com níveis de energia
E logo depois, a promessa:
entender a estrutura do átomo é a base para entender
como os materiais conduzem eletricidade
Os quatro modelos estão certos como história. O erro é duplo: a lista termina em Bohr, como se a ciência tivesse parado em 1913, e a promessa diz que esse ponto final explica a condução. Não explica.
O elétron de Bohr pertence a um átomo. Ele gira em volta de um núcleo só, preso a uma órbita, e só sai dela pulando de nível. É um sistema fechado: um núcleo, os seus elétrons, e mais nada.
Condução é justamente o contrário. Para haver corrente num fio, tem que existir elétron que não é de átomo nenhum — que anda pelo metal inteiro sem estar preso a um núcleo específico. Com átomos isolados de Bohr, um fio de cobre seria um amontoado de sistemas fechados, e não conduziria.
- o que Bohr acertaOs níveis de energia de um átomo de hidrogênio, com precisão impressionante.
- o que Bohr não alcançaQualquer átomo com mais de um elétron, a ligação química, e o sólido — onde bilhões de átomos repartem elétrons entre si.
Por isso Bohr não foi o fim. Em 1926 a mecânica quântica trocou a órbita por uma nuvem de probabilidade, e em 1928 Bloch aplicou isso a um cristal inteiro. É dali, e não do modelo planetário, que sai a explicação de por que o cobre conduz e o vidro não.
A lista ganha um quinto item, e a promessa passa a apontar para ele:
5 Schrödinger (1926) orbital: o elétron vira uma nuvem
de probabilidade, não uma pista
no sólido: os elétrons de fora de cada átomo
ficam repartidos pelo metal inteiro
No cobre isso é bem concreto. Cada átomo tem um elétron na camada mais externa, e ele fica fracamente preso. No metal, esse elétron se solta do seu átomo e passa a ser de todos: um "mar" de elétrons livres, com os núcleos parados no meio. Corrente é esse mar andando.
O vidro não tem esse mar. Os elétrons dele estão todos presos nas ligações, e soltar um exige energia demais. Por isso isola.
Primeiro, por que Bohr foi aceito. A fórmula dele dá a energia de cada nível do hidrogênio. O salto do nível 3 para o 2 fica assim:
E = 13,6 × (1/2² − 1/3²) = 1,89 eV
λ = 1240 / 1,89 = 656 nm
medido no espectro do hidrogênio: 656,3 nm ← a linha vermelha
Acerto de três algarismos. Não é à toa que o modelo convenceu. Só que essa conta só funciona com um elétron; no hélio, que tem dois, ela já erra.
Agora, o mar de elétrons. Quantos elétrons livres tem o cobre? Um por átomo, e os átomos se contam pela densidade:
8960 kg/m³ ÷ 0,0635 kg/mol × 6,02 × 10²³ = 8,5 × 10²⁸ elétrons por m³
Com isso dá para calcular a que velocidade os elétrons andam num cabo de 2,5 mm² — o mesmo da aula 03 — levando 20 A:
v = I / (n · A · e)
v = 20 / (8,5 × 10²⁸ × 2,5 × 10⁻⁶ × 1,6 × 10⁻¹⁹)
v = 0,59 mm/s
Meio milímetro por segundo. Mais devagar que uma lesma.
E aqui a prova fecha. Liga o interruptor de uma lâmpada a 10 m do quadro. Se o elétron tivesse que sair do quadro e chegar na lâmpada:
10 m ÷ 0,00059 m/s = 17 000 s ≈ 4 h 43 min
A lâmpada acende na hora. A única forma de as duas coisas serem verdade ao mesmo tempo — elétron a meio milímetro por segundo, lâmpada acendendo instantaneamente — é o fio já estar cheio de elétrons livres de ponta a ponta. O interruptor não manda elétron nenhum: ele empurra o mar inteiro de uma vez, e o empurrão viaja perto da velocidade da luz.
Elétron preso na órbita de Bohr não forma esse mar. É por isso que o modelo de 1913 não pode ser a base da condução.
os quatro modelos e a frase sobre condução são da minha anotação original sobre modelos atômicos. A densidade e a massa molar do cobre, a carga do elétron e a linha de 656,3 nm do hidrogênio são valores de tabela. A conta dos 20 A trata a corrente como contínua; em alternada o elétron nem chega a viajar, só vai e volta no lugar — o que reforça o argumento.