03 A contradição na mesma anotação
fator de agrupamento · I_z corrigido
Primeira frase, e está certa:
Um cabo de 2,5 mm² que isoladamente suporta 24 A
passa a ser dimensionado para 14 A a 16 A quando
agrupado com mais de 9 condutores no mesmo duto.
Segunda frase, duas páginas depois, no resumo técnico da mesma anotação:
Circuitos de LED: disjuntores de 10 A ou 16 A (curva C)
Condutores: 2,5 mm² para circuitos internos
As duas não podem ser verdade ao mesmo tempo. Se o cabo caiu para 14 A, o disjuntor de 16 A está protegendo um cabo que aguenta menos do que ele deixa passar.
Repara que eu não errei a regra. Eu escrevi a regra corretamente e depois especifiquei contra ela, porque na hora do resumo estava olhando a tabela do cabo isolado — a de 24 A — e não a corrigida.
A corrente que um cabo aguenta não é propriedade do cobre. É uma questão térmica: o cobre aquece com a corrente, e o limite é a temperatura que o isolamento suporta sem degradar. PVC comum trabalha até 70 °C.
Um cabo sozinho ao ar joga calor para todos os lados. Nove cabos juntos numa canaleta aquecem uns aos outros: o calor de cada um é o ambiente do vizinho. O cobre é o mesmo, a bitola é a mesma — mas o caminho de saída do calor piorou.
Daí a ordem das ideias que eu tinha invertido:
- o que a tabela dáA capacidade do cabo naquela condição de instalação. É um ponto de partida, não o valor final.
- o fatorCorrige para a condição real: quantos circuitos agrupados, qual temperatura ambiente.
- I_zÉ o resultado depois da correção. É esse que entra na regra, e só ele.
O perigo dessa falha é que ela não aparece. Disjuntor de 16 A num cabo de 14 A funciona perfeitamente — até o dia em que a carga fica entre 14 e 16 A por tempo suficiente. Aí o cabo passa dos 70 °C e o disjuntor não vê problema nenhum, porque 15 A é menos que 16 A. O isolamento vai endurecendo, rachando, e o defeito aparece anos depois, longe do quadro, dentro da parede.
A regra inteira, com o I_z já corrigido:
I_b ≤ I_n ≤ I_z
I_b corrente de projeto, o que a carga puxa
I_n nominal do disjuntor
I_z o que o cabo aguenta, JÁ corrigido por
agrupamento e temperatura
E a ordem de decidir, que é o que impede a contradição:
1 calcula I_b
2 pega I_z da tabela e aplica o fator
3 escolhe I_n entre os dois
4 se não couber nenhum disjuntor entre I_b e I_z,
aumenta a BITOLA — nunca o disjuntor
O passo 4 é o que eu tinha pulado. Quando o número não fecha, a tentação é subir o disjuntor, porque é a peça de R$ 15. Mas subir o disjuntor é exatamente desistir da proteção: o disjuntor existe para proteger o cabo, e um disjuntor acima do I_z não protege nada.
Cabo de 2,5 mm², método B1, dois condutores carregados. Tabela: 24 A. Num quadro de automação com mais de nove circuitos agrupados o fator fica entre 0,50 e 0,70; usando 0,60:
I_z = 24 × 0,60 = 14,4 A
Agora passa os dois candidatos pela regra. A carga é um circuito de LED de aproximadamente 300 W em 220 V, ou seja I_b ≈ 1,5 A:
com disjuntor de 16 A
1,5 ≤ 16 ≤ 14,4 FALSO
└─ 16 > 14,4, a regra quebra aqui
com disjuntor de 10 A
1,5 ≤ 10 ≤ 14,4 VERDADEIRO
O 16 A não passa nem com o fator mais generoso:
fator 0,70 → I_z = 16,8 A → 16 A passa raspando
fator 0,60 → I_z = 14,4 A → 16 A não passa
fator 0,50 → I_z = 12,0 A → nem o 10 A passa
É por isso que o fator não é detalhe de norma: ele decide o disjuntor. Entre 0,70 e 0,50 a resposta muda três vezes. Sem contar quantos circuitos estão agrupados de verdade, nenhuma das três linhas acima pode ser escolhida.
E tem uma folga que denuncia o erro: com I_b de 1,5 A, o disjuntor de 10 A já está usando 15 % da capacidade. O 16 A não estava ali por necessidade de corrente — estava por hábito.
as duas frases contraditórias vêm do mesmo arquivo de anotação, separadas por duas seções. O valor de 24 A para 2,5 mm² em B1 com dois condutores carregados é o da NBR 5410; o fator exato para o caso real depende de contar os circuitos agrupados, o que ainda está por fazer.