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O cabo que encolheu

Escrevi a regra do fator de agrupamento com todos os números certos. Duas páginas depois, especifiquei um disjuntor que a viola. O erro mais comum não é não saber a regra — é não aplicar a que você já escreveu.

começar

a receita, igual em toda aula

1 · o erro

As duas frases que se contradizem.

2 · o porquê

Por que o cabo perde capacidade.

3 · a correção

A ordem certa de decidir.

4 · a prova

A conta fechando.

03 A contradição na mesma anotação

fator de agrupamento · I_z corrigido

1 · o erro

Primeira frase, e está certa:

Um cabo de 2,5 mm² que isoladamente suporta 24 A
passa a ser dimensionado para 14 A a 16 A quando
agrupado com mais de 9 condutores no mesmo duto.

Segunda frase, duas páginas depois, no resumo técnico da mesma anotação:

Circuitos de LED: disjuntores de 10 A ou 16 A (curva C)
Condutores: 2,5 mm² para circuitos internos

As duas não podem ser verdade ao mesmo tempo. Se o cabo caiu para 14 A, o disjuntor de 16 A está protegendo um cabo que aguenta menos do que ele deixa passar.

Repara que eu não errei a regra. Eu escrevi a regra corretamente e depois especifiquei contra ela, porque na hora do resumo estava olhando a tabela do cabo isolado — a de 24 A — e não a corrigida.

2 · o porquê

A corrente que um cabo aguenta não é propriedade do cobre. É uma questão térmica: o cobre aquece com a corrente, e o limite é a temperatura que o isolamento suporta sem degradar. PVC comum trabalha até 70 °C.

Um cabo sozinho ao ar joga calor para todos os lados. Nove cabos juntos numa canaleta aquecem uns aos outros: o calor de cada um é o ambiente do vizinho. O cobre é o mesmo, a bitola é a mesma — mas o caminho de saída do calor piorou.

Daí a ordem das ideias que eu tinha invertido:

  • o que a tabela dáA capacidade do cabo naquela condição de instalação. É um ponto de partida, não o valor final.
  • o fatorCorrige para a condição real: quantos circuitos agrupados, qual temperatura ambiente.
  • I_zÉ o resultado depois da correção. É esse que entra na regra, e só ele.

O perigo dessa falha é que ela não aparece. Disjuntor de 16 A num cabo de 14 A funciona perfeitamente — até o dia em que a carga fica entre 14 e 16 A por tempo suficiente. Aí o cabo passa dos 70 °C e o disjuntor não vê problema nenhum, porque 15 A é menos que 16 A. O isolamento vai endurecendo, rachando, e o defeito aparece anos depois, longe do quadro, dentro da parede.

3 · a correção

A regra inteira, com o I_z já corrigido:

I_b  ≤  I_n  ≤  I_z

I_b   corrente de projeto, o que a carga puxa
I_n   nominal do disjuntor
I_z   o que o cabo aguenta, JÁ corrigido por
      agrupamento e temperatura

E a ordem de decidir, que é o que impede a contradição:

1  calcula I_b
2  pega I_z da tabela e aplica o fator
3  escolhe I_n entre os dois
4  se não couber nenhum disjuntor entre I_b e I_z,
   aumenta a BITOLA — nunca o disjuntor

O passo 4 é o que eu tinha pulado. Quando o número não fecha, a tentação é subir o disjuntor, porque é a peça de R$ 15. Mas subir o disjuntor é exatamente desistir da proteção: o disjuntor existe para proteger o cabo, e um disjuntor acima do I_z não protege nada.

4 · a prova

Cabo de 2,5 mm², método B1, dois condutores carregados. Tabela: 24 A. Num quadro de automação com mais de nove circuitos agrupados o fator fica entre 0,50 e 0,70; usando 0,60:

I_z = 24 × 0,60  =  14,4 A

Agora passa os dois candidatos pela regra. A carga é um circuito de LED de aproximadamente 300 W em 220 V, ou seja I_b ≈ 1,5 A:

com disjuntor de 16 A
    1,5  ≤  16  ≤  14,4        FALSO
                    └─ 16 > 14,4, a regra quebra aqui

com disjuntor de 10 A
    1,5  ≤  10  ≤  14,4        VERDADEIRO

O 16 A não passa nem com o fator mais generoso:

fator 0,70   →  I_z = 16,8 A   →  16 A passa raspando
fator 0,60   →  I_z = 14,4 A   →  16 A não passa
fator 0,50   →  I_z = 12,0 A   →  nem o 10 A passa

É por isso que o fator não é detalhe de norma: ele decide o disjuntor. Entre 0,70 e 0,50 a resposta muda três vezes. Sem contar quantos circuitos estão agrupados de verdade, nenhuma das três linhas acima pode ser escolhida.

E tem uma folga que denuncia o erro: com I_b de 1,5 A, o disjuntor de 10 A já está usando 15 % da capacidade. O 16 A não estava ali por necessidade de corrente — estava por hábito.

as duas frases contraditórias vêm do mesmo arquivo de anotação, separadas por duas seções. O valor de 24 A para 2,5 mm² em B1 com dois condutores carregados é o da NBR 5410; o fator exato para o caso real depende de contar os circuitos agrupados, o que ainda está por fazer.

para levar

O número da tabela não é o limite do cabo: é o limite do cabo numa condição que talvez não seja a sua. Corrija primeiro, escolha depois — e quando não fechar, engrosse o cabo, não o disjuntor.

Núcleo de Elétrica Neon · aula 03 de 7 · todo erro desta página estava escrito numa anotação real minha — nenhum exemplo foi inventado