01 A raiz que não estava lá
corrente de projeto · I_b
Esta linha estava em cinco arquivos diferentes de anotação, sempre igual, e sempre aplicada a um quadro trifásico:
I_b = P / (V · cos φ)
A fórmula não está errada. Ela é a fórmula certa — de monofásico. O erro é aplicar num quadro de três fases, e em nenhum dos cinco arquivos estava escrito para qual dos dois ela servia.
É por isso que ele passou tanto tempo sem ser pego: a conta funciona, dá um número, o número tem cara de corrente. Só está errado.
Num circuito monofásico existe um caminho só: a potência toda passa por uma fase e volta pelo neutro. Divide a potência pela tensão e acabou.
Num trifásico equilibrado a potência se reparte entre três
caminhos, e as três não puxam no mesmo instante — estão defasadas em 120°.
Quando uma está no pico, as outras duas não estão. Essa defasagem é a razão
física do √3: ele não é fator de correção nem margem de
segurança, é geometria.
O tamanho do erro:
- √3 ≈ 1,732A fórmula monofásica devolve um número 73 % maior que o real.
- para maisSe eu dimensionar por ele, compro disjuntor e cabo grandes demais. Caro, mas não queima.
- para menosSe eu usar a trifásica onde o circuito é monofásico, subdimensiono em 42 %. Aí o cabo esquenta.
O erro caro é o segundo. E como a anotação não dizia qual fórmula era qual, os dois estavam ao alcance da mão.
Duas fórmulas, cada uma com o nome na frente. Não existe "a fórmula da corrente" — existem duas, e a primeira coisa a decidir é qual:
monofásico I_b = P / (V · cos φ)
trifásico equilibrado I_b = P / (√3 · V · cos φ)
E o cos φ não é enfeite. Carga resistiva é 1,0 e pode ser
omitida sem prejuízo; motor é 0,8; driver de LED vai de 0,5 a 0,9 e tem que
sair da etiqueta, porque nesse caso ele muda a conta em quase o dobro.
A prova não precisa de bancada. Ela está na tabela de padrão de entrada da concessionária, que eu já tinha copiado na anotação sem perceber que ela responde a pergunta.
A tabela diz: categoria com disjuntor de 63 A atende até 25 kVA. Então é só perguntar qual fórmula reproduz esse par, numa rede de 220 V entre fases:
com a fórmula monofásica
S = 220 × 63 = 13,9 kVA ← não bate com 25
com a fórmula trifásica
S = √3 × 220 × 63 = 24,0 kVA ← bate
E não é sorte de uma linha só. As outras duas categorias fecham do mesmo jeito:
√3 × 220 × 40 = 15,2 kVA tabela: até 15 kVA
√3 × 220 × 63 = 24,0 kVA tabela: até 25 kVA
√3 × 220 × 100 = 38,1 kVA tabela: até 38 kVA
Três linhas, três acertos. A tabela foi montada com o √3. Quem escreveu a norma usou a fórmula trifásica; era a minha anotação que estava fora.
Esse é o tipo de conferência que dá para fazer sozinho, sem ninguém confirmar: pega um número que você sabe que é verdade, e vê qual fórmula o devolve.
as três categorias vieram da anotação antiga, que as atribuía a uma norma da Enel SP com um código que eu não consegui confirmar. Os valores são internamente coerentes e é por isso que servem de prova aqui — mas antes de usar em projeto, a tabela tem que sair da norma vigente.